Possibilidades

Eram duas meninas que perambulavam pelas ruas de Petrolina.  Na idade da esperança.

Os pés, quatro pés que não usariam hidratante Nivea.

As bocas, duas bocas que não provariam Chicabon.

As mãos, quatro mãos um dia tiveram uma cédula de vinte reais.

Eu as vi chegar à pizzaria. Pediram duas fatias de muçarela.  

Os olhos, quatro olhos se arregalaram.

Foi o sabor mais delicioso de suas vidas.

Foto por Maria Orlova em Pexels.com
Padrão

Os anjos de Drummond e Chico Buarque

Fiquei com vontade de escrever sobre anjos. Vontade essa que foi crescendo à medida em que fiquei curiosa a respeito da hierarquia desses seres. Nessa crônica, vão entrar Clarice Lispector, é claro; meus sobrinhos-netos Gabriel e Miguel; também Carlos Drummond de Andrade, Chico Buarque, Virginia Woolf e Anne Rice.

Sim, eu nunca pensei que eu teria sobrinhos-netos e que eu poderia ser tão próxima deles. Quando eu lia na biografia de alguém, por exemplo, fulana foi sobrinha neta de Katherine Mansfield eu pensava: sim, caramba e daí? Bom, acabei descobrindo que se houver proximidade na família, se você realmente for uma pessoa próxima do seu irmão ou da sua irmã, os filhos dos filhos deles serão seus sobrinhos-netos e, pasme, você será muito colada a eles. Maravilha.

Voltando aos anjos. Existem anjos e arcanjos. Arcanjos mandam muito. Mandam nos anjos. Mas quem nós chamamos para nos proteger? Nesse lance angelical de que estou falando, também há os querubins e os serafins. Andei pesquisando e a hierarquia é mais ou menos assim: Serafim – Querubim –  Arcanjo – Anjo. Como Carlos Drummond de Andrade vai aparecer nesse texto? É que ele escreveu sobre anjos no Poema de Sete Faces:

Quando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

(…)

… e Chico Buarque, começa a canção Até o Fim, conversando com Drummond sobre um anjo que entortou o personagem pela vida afora. O coitado, brasileiro, não sabia nem jogar bola:

Quando nasci veio um anjo safado

O chato do querubim

E decretou que eu estava predestinado

A ser errado assim

Já de saída a minha estrada entortou

Mas vou até o fim

(..)

Retornando ao mote, os anjos, volto também aos meus sobrinhos-netos, Gabriel e Miguel, que receberam nomes de anjos e anunciam que a família continua a crescer. Você deve estar pensando: caramba, essa cronista já tem sobrinhos-netos. Pois é. Tenho mais de 30 anos e você não pode confiar em mim, ouvi um brasileiro cantar. Juro que eu nunca pensei que eu chegaria aos trinta. Achava longe demais quando então tinha catorze anos de idade. Conheci meu amor quando ele tinha 30 anos. Ele completou 31 estações de vida 60 dias depois de darmos nosso primeiro beijo. Foi num mês de setembro. Se você decifrou essas palavras até agora, deve ter notado que faltaram Clarice Lispector, Anne Rice e Virginia Woolf. Vou falar sobre uma ligação que existe entre elas na próxima crônica. Beijo.

Trago boas notícias. Afinal, sou um anjo. Foto por Pixabay em Pexels.com
Padrão

Fernanda,

… estive em três peças suas: The Flash and the Crash Days (Recife), Dona Doida (Recife) e Dias Felizes (São Paulo). Eu trabalhava no Acontece, quando ainda era um caderno dentro da Ilustrada, da Folha de S.Paulo. A melhor coisa da função era que a gente ganhava ingresso para assistir aos espetáculos. Quando o assessor de imprensa era bem gente com a gente, ele descolava um encontro como o que tivemos.

Eu e meu amor tivemos a honra de conhecer você em São Paulo com Dias felizes. Nós conversamos por pouco tempo. Lembro que pedi a você que me falasse sobre uma doce obsessão, Clarice Lispector. Eu disse: ­— Me fala sobre a crônica que Clarice publicou no Jornal do Brasil, com uma carta sua, no auge da ditadura militar. Você abriu um sorrisão e me contou um pouquinho, o tempo era escasso, você ia sair com seu marido, Fernando Torres, para jantar e estava exausta depois da peça, claro. Obrigada por ter nos recebido. Obrigada por existir, por você ser essa Atriz (com letra maiúscula mesmo).

Pena não ter levado a máquina para registrar esse acontecimento na minha vida, também eu não sabia que ia ter a chance de conhecê-la. Ainda bem que arrependimento não mata. Se bem que arrependimento mata sim. Só que não é de vez e sim

l-e-n-t-a-m-e-n-t-e.

Padrão