Velhice e meninice se confundem

– Revisto-me de espelhos. Procuro o que mais me define. Foto por cottonbro em Pexels.com

— Você é índia branca que cupim não rói. Ela contou que esse foi o maior elogio que recebera em toda sua vida. Agora, aos 79 anos, olha-me com um manto de um azul profundo. Seus olhos são duas cortinas. Consigo captar o pulsar da vida. Bem humorada, diz que passou um mês na casa de alguém:

— Vieram me buscar, sabe? Fui para uma casa bonita, um pouco longe daqui. Me trataram tão bem. Me deram tantos mimos. Faziam e traziam o meu café na cama, veja só.

— E a senhora não consegue se lembrar quem eram?

— Não. Mas isso não importa. O que importa mesmo é que passei uns dias maravilhosos com um casal bonito que tinha um filhinho – será que era meu neto? Porque eu bem sei que tenho uma filha e um filho, disso tenho certeza. Disso eu consigo lembrar, os meus filhos estão marcados em mim.

Velhice e meninice se confundem? Porque há uma alegria inerente a certos idosos. Uma alegria inerente às crianças.

Mariana tem Alzheimer ou ficou caduca, como outrora se dizia do idoso que esquecia de coisas e, principalmente, de pessoas.

Fernanda,

… estive em três peças suas: The Flash and the Crash Days (Recife), Dona Doida (Recife) e Dias Felizes (São Paulo). Eu trabalhava no Acontece, quando ainda era um caderno dentro da Ilustrada, da Folha de S.Paulo. A melhor coisa da função era que a gente ganhava ingresso para assistir aos espetáculos. Quando o assessor de imprensa era bem gente com a gente, ele descolava um encontro como o que tivemos.

Eu e meu amor tivemos a honra de conhecer você em São Paulo com Dias felizes. Nós conversamos por pouco tempo. Lembro que pedi a você que me falasse sobre uma doce obsessão, Clarice Lispector. Eu disse: ­— Me fala sobre a crônica que Clarice publicou no Jornal do Brasil, com uma carta sua, no auge da ditadura militar. Você abriu um sorrisão e me contou um pouquinho, o tempo era escasso, você ia sair com seu marido, Fernando Torres, para jantar e estava exausta depois da peça, claro. Obrigada por ter nos recebido. Obrigada por existir, por você ser essa Atriz (com letra maiúscula mesmo).

Pena não ter levado a máquina para registrar esse acontecimento na minha vida, também eu não sabia que ia ter a chance de conhecê-la. Ainda bem que arrependimento não mata. Se bem que arrependimento mata sim. Só que não é de vez e sim

l-e-n-t-a-m-e-n-t-e.

Querida Vivi,

… você nasceu numa manhã fria londrina que se tornou quente, muito quente, quentíssima quando você soltou o primeiro grito neste mundo. Você recebeu o nome de Adeline Virginia Stephen, filha de Julia Prinsep Stephen, conhecida por sua beleza e de Sir Leslie Stephen, historiador e editor. Você virou crítica literária aos vinte anos de idade, escrevendo regularmente para o The Times Literary Supplement.

Seu marido, Leonard Woolf, conheceu nas reuniões do Bloomsbury, grupo de vanguarda que reunia escritores e artistas desde 1904 em Londres. Foi com Leonard que você fundou a Hogarth Press em 1917, e publicou autores como Katherine Mansfield, T.S. Eliot, Máximo Górki e olha só: a obra completa de Sigmund Freud.
Você escreveu A Viagem (1915), Noite e Dia (1919), O Quarto de Jacob (1922), Mrs. Dalloway (1925), Passeio ao Farol (1927) e Orlando (1928). Depois vieram As Ondas em 1931 e Flush (1933). Você sofreu colapsos nervosos ao enfrentar a morte da sua mãe, em 1895; depois, no falecimento do seu pai, em 1904 e logo após o casamento com Leonard, em 1912.

Sei também que criou Entre os Atos ouvindo as bombas dos alemães caírem durante a II Guerra Mundial. Esta manhã discutimos o suicídio, se Hitler nos invadir. De que nos vale esperar?, estava anotado em seu diário no dia 15 de maio de 1940. Viu serem destruídas pelos bombardeios alemães a casa em que morou e onde também funcionava a editora, em Mecklenburgh Square; e a casa em Tavistock Square, onde você e Leonard viveram por tantos anos: Tudo é entulho onde escrevi tantos livros, também ficou registrado no seu diário.
Para mim, você foi uma lutadora sem igual e esta pequena carta que lhe escrevo é para dizer que leio você desde 1991 e que suas palavras impressas deixam minha vida mais completa.
Com amor!