É força sair sem olhar para trás de quem te te amou? É força?

Atena foi nomeada por Clara. A mãe, Clarissa, adorou a escolha.

Atena convivia com outro bicho. Um cachorro. Ou melhor, uma cadela: Mély, raça amortecedor Cofap. Não vou falar como era o convívio entre esses seres singulares. Do que posso falar é que Atena desapareceu. Fugiu. Escafedeu-se. Nem esse desaparecimento realmente importa. Importa mesmo é a busca que mãe e filha empreenderam. Saíram no meio da noite atrás da fujona. E parece que naquela noite, os gatos, todos os gatos do bairro resolveram estar nas ruas. Havia uns vinte em cada terreno baldio. Em cada banco da praça. Em cada esquina. Como encontrar Atena no meio de tantas assembleias felinas, se não possuía identificação alguma. Nem uma mancha de nascença, nem coleira. Gatos também usam coleiras, fato difícil de assimilar já que a liberdade sempre esteve associada aos emissores de miaus. Achava que só cachorro precisava de coleira.

Gato é bicho das ruas. Sorrateiro, utiliza a casa dos seus donos para passar uma temporada. Não se apegam às pessoas. Gatos apegam-se aos tetos que os abrigam. Espertos, usam o lar para passar uma temporada. É pensão. É hotel. Não é residência. Vida de gato é vida boa? Quanto à Atena, provavelmente já encontrou guarida. Terá outros proprietários que não serão seus proprietários. Gatos não curtem propriedade privada. Só as aproveitam para estarem e abusarem da estada. Atena voltará? Não sei dizer. Desconheço o comportamento desses bichanos. E nem tenho vontade de conhecer. Pois não tenho talento para ser abandonada sem nenhuma despedida decente. Atena, você vai voltar, menina? Acho que você deveria retornar, sabe? Pelo menos dizer adeus. Depois, você poderá partir sem deixar os corações de Clara e Clarissa em pedaços. Gatos não ligam para os sentimentos dos donos? Acho que não. Essa liberdade de ir e vir é destinada aos fortes? É força sair sem olhar para trás de quem te alimentou, te amou, te deu abrigo? É força? Você me diga. É força?  

Foto por Pixabay em Pexels.com

Cuidado com os nomes que damos aos seres. Atena, considerada a deusa virgem, permaneceu assim durante toda a história. Ela pedia aos deuses para não se apaixonarem por ela pois temia compromisso. Ficaria grávida, teria que abandonar as guerras e acabaria por ter uma vida doméstica.

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