Clarice de mau-humor

Os cronistas faziam seus textos diariamente ou semanalmente para um jornal que seria impresso.  A tarefa de escrever, então, era um compromisso sério. Havia um prazo para terminar e enviar. Era o cruel dead line, como se usa na rotina do repórter de jornal, revista ou televisão. Além de concluir o texto, o cronista ainda tinha que enviar o texto para a redação.

Na época em que Clarice Lispector escrevia, não havia computador. Só máquinas de escrever. O texto tinha que ser escrito rotineiramente. Não dava para esperar inspiração. Tinha que trabalhar. Não havia tempo para sonhar. E olha que Clarice tinha um espaço aos sábados no Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro.  Escrever por obrigação foi um desafio e tanto. Porque ela se dizia amadora e não profissional. Se a gente for ver a definição de amadora, vai descobrir que é aquela pessoa que faz algo por amor. E não por dever. Nesse sentido, Clarice era uma adorável amadora. E todo cronista que se preze um dia vai explodir:

Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo.

E criaram o Dia dos Analfabetos.  Só li a manchete, recusei-me a ler o texto do mundo, as manchetes já me deixam em cólera.

| Clarice Lispector. A Descoberta do Mundo, trecho de crônica publicada no Jornal do Brasil em 14 de outubro de 1967.

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Clarice e Clarissa tecem horas e bordam pétalas

A tecedora das horas seria o título de um texto que versaria sobre um trecho da obra de Clarice Lispector, minha mais doce obsessão. O título se referia a um fragmento do livro de CL, Um Sopro de Vida (Pulsações), em que o ato de tecer é mencionado quando o narrador diz que a personagem Angela Pralini não se satisfaz em escrever crônica para jornais. Aí, deparei-me com um texto de uma quase xará de Clarice, a também escritora Clarissa Loureiro, que inicia assim seu poema sobre a necessidade de bordar:

É preciso aprender a bordar antes de morrer. Sim, é preciso.

Clarissa loureiro

Alguns chamariam de coincidência o fato de Clarissa começar o poema com o ato de bordar, que tem muito a ver com o ato de tecer. Em vez de coincidência, prefiro chamar o ocorrido de borboleta lírica. O que fica em mim quando leio esse poema? A sensação de bruma, neblina, mas também de um passeio por um jardim, pétalas lançadas ao vento.E de liberdade. Liberdade que é a ausência de medo. Seremos capazes de aprender a bordar? Percorreremos jardins e deixaremos um mavioso aroma dos erros que cometemos.

Juliette Binoche em cena do filme A liberdade é azul, de Krzysztof Kieslowski

Segue o texto completo de Clarissa Loureiro:


É preciso aprender a bordar antes de morrer. Sim, é preciso.
É preciso aprender a ouvir o tempo,com a serenidade dos velhos, com a acuidade dos animais, com a paciência das mães, com a tolerância das flores.
Quando era mais jovem, ouvi de meu primeiro namorado uma dolorosa saudade: ” a tua loucura não te deixa entediar”. A ansiosa menina despedaçava as circunstâncias como pétalas de rosas jogadas ao acaso. E deixava um doce aroma de seus erros por onde passava. “Toda loucura será perdoada?” Talvez, na juventude.
O jovem tem o álibi da ignorância do prever, já que não viveu o bastante para observar da cadeira de rodas de sua existência a enfadonha repetição de seus erros mascarados de anseios.
Hoje, sentada nesta mesma cadeira de rodas, aceito minha condição de pítia. Deixo os chinelos ao lado da cama à espera que o tempo melhore, ciente de que nem sempre se pode estar no controle. Saibamos silenciar diante do inevitável.
Se eu soubesse bordar, colocaria minha cadeira diante do entardecer e deixaria a agulha passear por entre meus dedos, parca de minhas sensações.

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