Maria Ribeiro, uma atriz brasileiríssima

Maria Ribeiro em cena de Vidas Secas, filme de Nelson Pereira dos Santos
Maria Ribeiro estreou em Vidas Secas
Nos sertões, o sol pode ser tão ofuscante que se faz deserto dentro da gente. Foto por Hoang-Loc Dang em Pexels.com

Ao ler Vidas Secas para o meu filho, tive que interromper porque ele disse que estava se sentindo muito mal pela situação da família retratada na obra de Graciliano Ramos. E olha que o colégio em que estuda gosta de literatura bélica. Ele já encarou A Mala de Hannah, de Karen Levine; e vai ter que enfrentar, ainda neste ano, Terras Sonâmbulas, de Mia Couto, sobre a guerra civil em Moçambique.

Cartaz de autoria da artista plástica Lygia Pape

Realmente, são vidas parcas as de Sinhá Vitória e a do marido, Fabiano; do filho mais velho,; do filho mais novo; do papagaio e da cadela Baleia.

Vidas Secas partiu de uma série de contos publicados em vários jornais. O primeiro conto intitulou-se Baleia. A opção por escrever short stories, como chamam os norte-americanos, deveu-se a um condicionante: a dificuldade financeira de Ramos o obrigava a publicar na imprensa para receber imediatamente o pagamento. Não sei em quando o autor percebeu que estava escrevendo um romance. Se foi um acaso ou não. Eram histórias independentes que formavam um todo.

Vidas Secas, publicado em 1938, é de partir o coração. E é literatura inovadora, com linguagem enxuta para fazer jus à aspereza da terra no Sertão de Alagoas.

O romance virou filme nas mãos de Nelson Pereira dos Santos e teve uma interessante carreira internacional. Em 1964, concorreu no Festival de Cannes junto com Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. Neste ano, saiu vencedora a película Os Guarda-chuvas do Amor (Les parapluies de Cherbourg).

O que me motivou a escrever sobre Vidas Secas foi conhecer a luminosa Carla Fernanda, parente da atriz Maria Ribeiro, o que me levou a rever o filme, visto pela primeira vez quando eu fazia faculdade de jornalismo em 1995.

No dia 10 de setembro de 2021, notei que a atriz que encarnou o papel de Sinhá Vitória em Vidas Secas ainda não possui um verbete na Wikipédia.

Na minha biblioteca, tenho História do Cinema Brasileiro, organizado por Fernão Ramos e, pasme, não há um verbete sobre a atriz. Há páginas e mais páginas dedicadas ao filme, ao diretor, ao ator que fez Fabiano, porém, nada relevante a respeito da nossa Maria Ribeiro. Ela só aparece no índice onosmástico e na ficha técnica do filme. Um erro fabuloso obliviar o nome de uma das atrizes mais importantes do cinema brasileiro.

Nada a respeito de Maria Ribeiro na edição de 1987, do Círculo do Livro.
Maria Ribeiro aparece apenas na ficha técnica de Vidas Secas em História do Cinema Brasileiro (1987)

Ribeiro tem 98 anos de idade e vive na Suíça. Voltou a trabalhar com Nelson Pereira dos Santos em O Amuleto de Ogum e n´A Terceira Margem do Rio, baseado no conto homônimo de João Guimarães Rosa

E viva Maria Ribeiro!

Filmografia de Maria Ribeiro

  • Vidas Secas (1963), direção de Nelson Pereira dos Santos
  • A Hora e a Vez de Augusto Matraga (1965), Roberto Santos
  • Os Herdeiros (1970), Cacá Diegues
  • O Amuleto de Ogum (1974), Nelson Pereira dos Santos
  • Soledade (1976), Paulo Thiago.
  • Perdida (1976), Carlos Alberto Prates Corrêa
  • A Terceira Margem do Rio (1994), Nelson Pereira dos Santos
  • As Tranças de Maria (2003), Pedro Carlos Rovai

O chão é tão seco quanto a vida dos personagens de Graciliano Ramos. Foto de Carolyn em Pexels.com

=== Fontes onde bebi informações para escrever este artigo:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Vidas_Secas_(filme)

http://bases.cinemateca.gov.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p&nextAction=lnk&exprSearch=ID=003141&format=detailed.pft

https://www.mulheresdocinemabrasileiro.com.br/site/mulheres/visualiza/297/Maria-Ribeiro/3

Literatura e resistência no Youtube nesta segunda, 30

Literatura e Resistência é o tema da primeira edição do Festival Literário Virtual da Vitória (FLIVI). Tendo como referência e em memória do estudioso Alfredo Bosi, trará debates, palestras e concurso de poesia. Anota aí: minha amiga orientadora e amiga Clarissa Loureiro participará do evento no dia 30 de agosto no Youtube da UNIVISA. Loureiro é especializada no estudo de gênero, identidade e memória. Doutora em Teoria da Literatura, é autora de Mau Hábito (2010), Invertidos (2012) e Laurus (2019).

Foto por Janko Ferlic em Pexels.com

A mesa-redonda da qual Clarissa participará, terá a presença de Marcos Faber, Odailta Alves e Micheliny Verunschk. Lembrando: dia 30 de agosto de 2021, às 19h30, no Youtube da UNIVISA. A gente se encontra lá.

Das nuances de Jake Gyllenhaal

Tatiana Malansky (Erin) e Jake Gyllenhaal (Jeff) em cena do filme O que te faz mais forte (Stronger, 2017)

Quero e vou escrever sobre Jake Gyllenhaal. Que sobrenome é esse, menino? Veio por parte da sua mãe ou do seu pai? Gyllenhaal entra para a lista em que está Matthew McCougndsdnsjjdsk. Tive que pesquisar o sobrenome de Matthew. É McConaughey. Volto a Jake. Você já assistiu a Donnie Darko?  É da prolífica safra de filmes estranhos. Começa com uma música dez. E JG ainda não sabia como seria considerado um dos melhores da sua geração. Talentoso desde menino, viu? Ontem, vi Stronger, filme lançado em 2017. Trata-se da história de um dos sobreviventes do atentado ocorrido na maratona de Boston. Gyllenhaal é Jeff Bauman. O ator aparece pouco. Explico-me, ele encarna tão bem o personagem que Gyllenhaal surge na medida necessária num papel cheio de nuances emocionais.  Tais sutilezas crescem à medida em que percebemos os obstáculos que serão vencidos pois o povo de Boston trata Bauman como herói. Só que não é bem assim. O papel de Jake se desenvolve bem porque tem o suporte fundamental das atrizes Tatiana Malansky e Miranda Richardson. A primeira faz o papel da supernamorada, Erin Há uma cena de tirar o fôlego com Tatiana – não vou contar porque você precisa ver para crer.

Stronger é baseado no romance de mesmo nome de autoria de Jeff Bauman e Bret Witter. Película roteirizada por John Pollono e dirigida por David Gordon Green. Aqui no Brasil, foi traduzido para O que te faz mais forte.

No dia em que escrevo, 15de agosto de 2021, Stronger ainda não está na Netflix nem no Prime. Pode-se alugar no Youtube.

Obrigada por me ler. Um abração grandão em você. Cuide-se!

Arte é mergulho

Nitimur in vetitum ressoava na cabeça de Mariana enquanto caminhava em direção à galeria em que haveria, veja só, sua própria vernissage. Seria sua noite e ela não sabia se aquelas vinte telas penduradas traduziam bem a sua alma. E daí se não expressarem o que tentei reproduzir? Eu trabalhei. Eu produzi. Não esperei a inspiração chegar. Expirei. Suei. E estou na minha primeira exposição individual. Nitimur in vetitum. Temos tanta inveja dos artistas. Os artistas se permitem. Não há limites para a imaginação. Criadores não têm medo de naufragar. O naufrágio alimenta a busca. Todo artista busca. O quê? Não importa. Nitimur in vetitum. O escritor brasileiro José Castello disse que enviou um conto de sua autoria para Clarice Lispector. Passou-se muito tempo e sem obter nenhuma resposta. Um dia, o telefone toca e era CL:

— Eu quero dizer que o senhor é um homem muito medroso e, com medo, ninguém escreve! 

Clarice bate o telefone.

Nitimur in vetitum. O espanto move poetas. Finitas, as mãos cosem palavras. São doces as infinitas possibilidades da queda. Cobertas de sorvete as paredes do abismo da criação. Cospe flores mofadas quem desistiu de si mesma. Existirmos, a que será que se destina? Eu não desisti de mim mesma. Sofri. Mas quem não sofreu? É que a gente se interrompe. O tempo todo. Interrompidas somos, mas continuamos inteiras. I´ll miss myself so bad when I die. 206 é a quantidade de ossos do corpo humano. Mariana viu essa informação numa palavra-cruzada. Gosta de filmes e-s-t-r-a-n-h-o-s. Curte David Lynch. Nitimur in vetitum.

Foto por Antonio Sokic em Pexels.com

Marc Chagall e a atração louca pelo voo. Eu sei que na palavra dEUS há vários EUS. Dia chuvoso. Rugosa a vida das aranhas. Uma borboleta azul começou a paquerar uma coruja. Cerzideira, a formiga observa o magnífico encontro.  Lancei-me ao proibido. Porque é isso que os artistas fazem: vão em direção ao proibido. Vou sentir tanta falta de mim quando eu morrer, afirmou Macabéa, personagem de Clarice Lispector, no esplendoroso A hora da estrela. Foi Ovídio quem escreveu: Nitimur in vetitum. Significa lançamo-nos ao proibido; o que me lembra a epígrafe escolhida por James Joyce no seu Retrato do artista quando jovem: Et ignotas animum dimittit in artes. Foi citada em latim, é de autoria de Ovídio. Em inglês, traduzido assim: And he turned his mind to unknown arts. Para o português, eu verteria deste jeito: E ele se voltou para artes desconhecidas.   

José Castello parou de sentir medo?

Enfim, bora escrever. Seremos intrépidos.

A elegância do ouriço

Numas férias de julho, tive o prazer de ter nas mãos “A elegância do ouriço”, lançado em 2008 pela Companhia das Letras. A autora, Muriel Barbery, traz um maravilhoso embate entre classes sociais em Paris – e que fosso há entre elas – de um modo surpreendente. De um lado, Renée Michel, a concierge de um luxuoso prédio residencial em Paris. De outro, Paloma Josse, uma menina de 12 anos, filha de uma rica família francesa. Há uma bomba chiando na colcha de retalhos tecida por Michel e Josse ao narrarem os acontecimentos que se passam no número 7 da Rue de Grenelle. Uma bomba que explode em gotas de filosofia, música, literatura e arte. O ambiente é altamente bélico, mas fará o leitor rir e chorar.

Foto por Rachel Claire em Pexels.com

| Paul Auster: a última coisa que eu queria era me proteger dos riscos da vida |

A vida não é uma natureza morta. Foto por Daria Shevtsova em Pexels.com

Fui e sou apaixonada por muitos “Paul”: o ator, Newman; o Beatle; e tem também o escritor, Paul Auster (foto), que faz aniversário hoje, 3 de fevereiro de 2015. O que me fascina na obra de Auster é o manejo incomparável da escrita. Ele parece um maestro. Gosto também da recorrência de certos temas na sua obra, como as terríveis e adoráveis coincidências que são pregadas por e pelas nossas vidas.  Admiro o escritor ou a escritora que sempre soube que queria escrever, como uma missão. Ou dádiva. Ou sina. Em Da mão para a boca (Hand to mouth), Auster nos conta como foi difícil se manter do ofício de escrever, como ele se posiciona tão firmemente em relação ao caminho que precisou seguir:

Não vou defender as escolhas que fiz. Se elas não foram práticas, a verdade é que eu não queria ser prático. Queria viver experiências novas, conhecer o mundo e me testar, entrar e sair de várias coisas, explorar o máximo possível. Desde que eu mantivesse os olhos abertos, parecia-me que tudo que acontecesse comigo seria útil, me ensinaria coisas que eu não conhecia antes. Se isso parece um método um tanto antiquado, então que seja: jovem escritor despede-se da família e dos amigos e parte para um rumo desconhecido, a fim de descobrir a si próprio. Por melhor ou pior que fosse esse caminho, creio que nenhum outro me teria servido. Eu tinha energia, a cabeça cheia de ideias e pés que não queria ficar parados no mesmo lugar. Como o mundo era grande, a última coisa que eu queria era me proteger dos riscos da vida.

Carta para David

Bowie,

te dou pérolas e diamantes de todo o meu coração. Lá pelos anos oitenta, eu ouvia você pelas ondas que me chegavam pelo rádio. Quem consegue discordar da magia daquelas noites maravilhosamente insones?
Noites de adolescente em Petrolina, sertão pernambucano. O rádio era nosso i-pod, i–phone, Samsung-galaxy, moto-g… Freddy está tão certo naquela canção, Radio Ga Ga!
Eu era feliz… e sabia!
Como isso aqui não é uma dissertação de mestrado, ouso afirmar que eu sei qual é a sua Pasárgada. A sua Pasárgada está localizada no espaço sideral. E eu posso provar com os títulos de algumas canções suas: Starman, Ziggy Stardust, Space oddity, Life on Mars?
David, eu te ai lóvi iú. Não, não. Não porque o amor seja uma palavra antiquada e sim porque “o amor nos desafia a cuidar das pessoas no fim da noite, o amor nos desafia a mudar nosso jeito, nos desafia a cuidar de nós mesmos, esta é a nossa última dança, estes somos nós.” (Under pressure, trecho livremente traduzido)
Love,
Nádia aos 21 dias de junho de 2015.

A Pasárgada de Bowie | Foto por Tom Leishman em Pexels.com