… e o palco do Oscar virou uma arena

Em 1972, Charlie Chaplin ganhou um prêmio honorário da Academia Oscar. Ele foi ovacionado por vários minutos. Merecidamente. Abaixo, seguem as palavras do apresentador da cerimônia, que fez um resumo da vida e obra de Chaplin:

“A caminhada do humor é nosso senso de sobrevivência e preserva nossa sanidade. Essas são as palavras de Charlie Chaplin. Assim são estas escritas há mais de 30 anos. Pensamos demais, sentimos muito pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de gentileza e gentileza. Sem essas qualidades, a vida será violenta e tudo estará perdido. Humor e humanidade, os elementos permanentes da consciência artística de Chaplin e seu talento inigualável como ator, escritor, diretor, produtor, compositor. . “

50 anos depois, vemos a barbárie no palco. Will Smith agiu com desonra.

Ele respondeu às palavras de Chris Rock com um tapa que mais parecia um murro. Rock só não caiu porque ele estava numa postura meio que envergada, com as mãos para trás. Se ele estivesse com a postura ereta, Chris Rock teria saído dali direto para o hospital.

Que covardia a de Smith. Bateu e depois que voltou ao seu lugar na plateia ainda continuou falando para Rock “calar a boca de merda”.

A única boca medonha é a sua, Smith.

Chris Rock é que foi a rocha que mantém a humanidade de pé. Ele só foi bem humorado. É o papel dele. Chris é um humorista.

A violência venceu. Se Chaplin foi aplaudido de pé em 1972, eu me pergunto:

Por que Will Smith não foi vaiado?

Por que ninguém defendeu Chris Rock?

Foi um ringue de luxo tendo como espectadores umas criaturas que faturam quantias imensas de dinheiro e parecem viver à margem da sociedade.

A festa do Oscar foi um espelho do que temos hoje. Uma sociedade que dá mais valor a estrelas de cinema e a atletas bilionários.

Vi poucos defendendo Chris Rock no calor do momento, pelo menos nas entrevistas da noite, como John Leguizamo e Rosie Perez.

Smith nunca se desculpou, nem meia hora depois quando segurou a estatueta de melhor ator. Ele se desculpou com a academia, com os colegas, mas em nenhum momento disse “mas que ato horrendo eu cometi contra um ser humano. Desculpas, Chris”. E o que Smith fez foi indesculpável.

Pasme, ele foi aplaudido no discurso falso, claudicante, de um cara pequeno.

Tem algo de muito errado no modo como vemos o mundo. A plateia de 1972 ovacionou Charles Chaplin. A de 2022 aplaudiu Will Smith. A guerra venceu, todos nós perdemos.

Vera,

Foto por Andre Furtado em Pexels.com

… as histórias da sua infância – as que você me contou e as que você me conta novamente – porque eu sempre insisto que você as conte over and over again como uma viagem a um poço sem fim. Você me faz rir, me faz delirar de tanta alegria em te ouvir. Verdadeiras ou não, o que importa mesmo é que você sabe narrar. Que contadora de histórias você é. Além de inteligente, linda e elegante. E eu sou profundamente feliz e agradecida por ser sua irmã. Te amo, Vera!

Escrito para o aniversário de 02 de junho de 2015.

 recuperado em 02.02.2022

Foto por Bekka Mongeau em Pexels.com

O tecer das horas e o bordar das pétalas

Foto por Olga em Pexels.com

A tecedora das horas seria o título de uma crônica que versaria, pra variar, sobre um trecho da obra de Clarice Lispector, minha mais doce obsessão. O título se referiria a um fragmento do livro de CL, Um Sopro de Vida (Pulsações). O ato de tecer é mencionado quando o narrador diz que a personagem Angela Pralini não se satisfaz em escrever crônica para um jornal.

Antes de começar a escrever minha crônica para o blog, deparo-me com um texto de uma quase xará de Clarice, a também escritora Clarissa Loureiro, que inicia seu poema sobre a necessidade de bordar:

“É preciso aprender a bordar antes de morrer. Sim, é preciso.”

Alguns chamariam de coincidência o fato de Clarissa começar o poema com o ato de bordar, que tem muito a ver com o ato de tecer. Em vez de coincidência, prefiro chamar o ocorrido de borboleta lírica.

O que fica em mim quando leio esse poema? A sensação de bruma, neblina, mas também de um passeio por um jardim, pétalas lançadas ao vento. E de liberdade. Liberdade que é a ausência de medo. 

Seremos capazes de aprender a bordar? Percorreremos jardins e deixaremos um doce aroma dos erros que cometemos.

Segue o texto de Clarissa Loureiro:

É preciso aprender a bordar antes de morrer. Sim, é preciso.

É preciso aprender a ouvir o tempo, com a serenidade dos velhos, com a acuidade dos animais, com a paciência das mães, com a tolerância das flores.

Quando era mais jovem, ouvi de meu primeiro namorado uma dolorosa saudade: ” a tua loucura não te deixa entediar”. A ansiosa menina despedaçava as circunstâncias como pétalas de rosas jogadas ao acaso. E deixava um doce aroma de seus erros por onde passava. “Toda loucura será perdoada?” Talvez, na juventude.

O jovem tem o álibi da ignorância do prever, já que não viveu o bastante para observar da cadeira de rodas de sua existência a enfadonha repetição de seus erros mascarados de anseios.

Hoje, sentada nesta mesma cadeira de rodas, aceito minha condição de pítia. Deixo os chinelos ao lado da cama à espera que o tempo melhore, ciente de que nem sempre se pode estar no controle. Saibamos silenciar diante do inevitável.

Se eu soubesse bordar, colocaria minha cadeira diante do entardecer e deixaria a agulha passear por entre meus dedos, parca de minhas sensações.

Querida Alanis,

… esta carta é para te dizer que você entrou na minha vida quando eu morava em São Paulo. Como gostei de cada música sua. Do seu jeito de menina, da sua alma de mulher. De certo modo, eu me via em você, eu estava começando a minha vida de adulta com um canudo de jornalista no bolso. E muita fé.

Abracemos a vida! Foto por Nina Uhlu00edkovu00e1 em Pexels.com

Sabe, quiseram te depreciar dizendo que você era a Angélica do Canadá. Que você tinha um trabalho menor. Você é grande. Mas claro que você já sabe disso. Você construiu uma obra maravilhosa que vai ficar ressoando na minha cabeça e na muita gente que viu sua estrela ascender.

Eu assisti ao documentário na HBO, Jagged Little Pill, você não é mais uma menina – fisicamente falando. Você envelheceu bem e virou mãe! Lindos os seus filhos. Que cresçam felizes.

Você merece tudo de bom que houver nesta vida. E um pouquinho mais.

Então, Alanis Morrissete, obrigada por suas canções!

Um beijo com carinho, extremo carinho!

Nádia

Brasil, 28 de dezembro de 2021

Menino que é pai do homem

Tem filmes que a gente vê e dá vontade de escrever um romance como O Silêncio de Melinda (Speak, 2004). Ou As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower, 2012).  Séries também alimentam a minha alma de escritora.

Mudando de sabão para chocolate, Palmer (2021) é daquela safra de filmes em que o menino é pai do homem. Olha o trecho do diálogo entre Eddie Palmer, vivido por Justin Timberlake, e Sam (Ryder Allen):  

— Você gosta de tomar vaca preta?

— Nunca tomei.

— Nunca tomou? Venha comigo experimentar.

— Tá.

— E aí? O que achou da vaca preta?

— É o céu numa caneca!

Com essas palavras, vejo que começo a me despedir de 2021. Foi um ano em que não realizei muita coisa. Vou trabalhar e fazer a situação mudar em 2022. Um abraço para você. Obrigada mesmo por me ler. Se cuida. Abre aquele sorriso. Isso! Fé na vida!

… deixa escoar

Se você estiver chorando no banheiro, não se preocupe. Sua dor irá embora. Confie em mim. A água levará todas as suas tristezas. A água vai te curar. Seus medos não vão se dissipar num passe de mágica. Os medos são necessários. Sem medo, não sobreviveríamos. Gota a gota, maneje sua dor. Confie em mim. Se você estiver chorando no banheiro, não se preocupe com isso. Essa dor vai passar, você vai sobreviver e ficará mais forte do que nunca. Confie em mim. Drene todas as suas tristezas. Confie em mim. Você ficará mais forte do que nunca.

Drawing by Tom Aevedo. Copyright.