A elegância do ouriço

Numas férias de julho, tive o prazer de ter nas mãos “A elegância do ouriço”, lançado em 2008 pela Companhia das Letras. A autora, Muriel Barbery, traz um maravilhoso embate entre classes sociais em Paris – e que fosso há entre elas – de um modo surpreendente. De um lado, Renée Michel, a concierge de um luxuoso prédio residencial em Paris. De outro, Paloma Josse, uma menina de 12 anos, filha de uma rica família francesa. Há uma bomba chiando na colcha de retalhos tecida por Michel e Josse ao narrarem os acontecimentos que se passam no número 7 da Rue de Grenelle. Uma bomba que explode em gotas de filosofia, música, literatura e arte. O ambiente é altamente bélico, mas fará o leitor rir e chorar.

Foto por Rachel Claire em Pexels.com
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Viva Van

Eu tô ficando mais eu. Não só porque gosto de ser eu. Mas porque preciso ser eu. Que o guia da minha jornada seja o amor.

Van Gogh foi muito ele. Do contrário, não teria criado do jeito que criou. Viva Van.

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| Paul Auster: a última coisa que eu queria era me proteger dos riscos da vida |

A vida não é uma natureza morta. Foto por Daria Shevtsova em Pexels.com

Fui e sou apaixonada por muitos “Paul”: o ator, Newman; o Beatle; e tem também o escritor, Paul Auster (foto), que faz aniversário hoje, 3 de fevereiro de 2015. O que me fascina na obra de Auster é o manejo incomparável da escrita. Ele parece um maestro. Gosto também da recorrência de certos temas na sua obra, como as terríveis e adoráveis coincidências que são pregadas por e pelas nossas vidas.  Admiro o escritor ou a escritora que sempre soube que queria escrever, como uma missão. Ou dádiva. Ou sina. Em Da mão para a boca (Hand to mouth), Auster nos conta como foi difícil se manter do ofício de escrever, como ele se posiciona tão firmemente em relação ao caminho que precisou seguir:

Não vou defender as escolhas que fiz. Se elas não foram práticas, a verdade é que eu não queria ser prático. Queria viver experiências novas, conhecer o mundo e me testar, entrar e sair de várias coisas, explorar o máximo possível. Desde que eu mantivesse os olhos abertos, parecia-me que tudo que acontecesse comigo seria útil, me ensinaria coisas que eu não conhecia antes. Se isso parece um método um tanto antiquado, então que seja: jovem escritor despede-se da família e dos amigos e parte para um rumo desconhecido, a fim de descobrir a si próprio. Por melhor ou pior que fosse esse caminho, creio que nenhum outro me teria servido. Eu tinha energia, a cabeça cheia de ideias e pés que não queria ficar parados no mesmo lugar. Como o mundo era grande, a última coisa que eu queria era me proteger dos riscos da vida.

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Carta para David

Bowie,

te dou pérolas e diamantes de todo o meu coração. Lá pelos anos oitenta, eu ouvia você pelas ondas que me chegavam pelo rádio. Quem consegue discordar da magia daquelas noites maravilhosamente insones?
Noites de adolescente em Petrolina, sertão pernambucano. O rádio era nosso i-pod, i–phone, Samsung-galaxy, moto-g… Freddy está tão certo naquela canção, Radio Ga Ga!
Eu era feliz… e sabia!
Como isso aqui não é uma dissertação de mestrado, ouso afirmar que eu sei qual é a sua Pasárgada. A sua Pasárgada está localizada no espaço sideral. E eu posso provar com os títulos de algumas canções suas: Starman, Ziggy Stardust, Space oddity, Life on Mars?
David, eu te ai lóvi iú. Não, não. Não porque o amor seja uma palavra antiquada e sim porque “o amor nos desafia a cuidar das pessoas no fim da noite, o amor nos desafia a mudar nosso jeito, nos desafia a cuidar de nós mesmos, esta é a nossa última dança, estes somos nós.” (Under pressure, trecho livremente traduzido)
Love,
Nádia aos 21 dias de junho de 2015.

A Pasárgada de Bowie | Foto por Tom Leishman em Pexels.com
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Definição engraçadinha

- Oi, eu sou um cachorro. Quieres hablar?
Foto por Gilberto Reyes em Pexels.com

… por você, eu dormiria de meia pra virar burguês…

Ele tem nove anos, e no trecho acima da música do Barão Vermelho, me pergunta:

— O que é burguês?

Carambola, como vou explicar o que é burguês? Vou falar dos burgos, da Revolução Francesa, do Romantismo etc? O silêncio perdura enquanto a canção continua e ele parece ter esquecido o assunto.

— Já sei! Burguês é quem gosta de hambúrguer!

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Possibilidades

Eram duas meninas que perambulavam pelas ruas de Petrolina.  Na idade da esperança.

Os pés, quatro pés que não usariam hidratante Nivea.

As bocas, duas bocas que não provariam Chicabon.

As mãos, quatro mãos um dia tiveram uma cédula de vinte reais.

Eu as vi chegar à pizzaria. Pediram duas fatias de muçarela.  

Os olhos, quatro olhos se arregalaram.

Foi o sabor mais delicioso de suas vidas.

Foto por Maria Orlova em Pexels.com
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Arte é combate

Vincent Van Gogh lia muito. E gostava de anotar o que marcava o coração. Numa carta que escreveu ao seu irmão Théo, VG citou Millet de Sensier:

“A arte é um combate — na arte é preciso dar o sangue.

Eu preferiria não dizer nada do que me exprimir frouxamente.”

Artistas realmente podem sangrar na tentativa de dizer da forma que acreditam que deve ser. A necessidade de dar forma àquele estalo criativo que veio em sonho, numa conversa, num olhar ou durante a labuta diária.

“… é por isso que às vezes sinto a necessidade de me exprimir com um rude lápis de carpinteiro ao invés de um fino pincel”, afirma Van Gogh corroborando a imensa vontade que guia os que se atrevem a fazer arte. Para que o trabalho seja executado, não importam as ferramentas. Às vezes, um toco de carvão será responsável por moldar o grito que precisa sair. Qualquer coisa que estiver em nossas mãos. Vamos deixar de dar desculpas. Vamos agir. Vamos criar.    

Van Gogh: Noite estrelada

| Trechos extraídos de Cartas a Théo: p. 68. L & PM Pocket, Porto Alegre, 2014

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