… minha escritora predileta

Eu permiti que Clarice Lispector entrasse na minha vida em 1990 ou 1991. Falo sobre permissão porque quando a gente se torna uma leitora, no fundo o que a gente faz é percorrer um caminho de auto-conhecimento. E acredito que gente atrai os livros que a gente precisa. Tive sorte de começar com um livro que considero ‘leve’ de CL: A Hora da Estrela. Uma peça curta que abocanha tanta densidade. Digo peça porque mais parece obra de compositor de música clássica. Não quero denominá-la de obra-prima de Clarice porque colocar um rótulo pode limitar. E uma coisa que a obra de Clarice não permite é a existência de limites. Lá, tudo transborda.

Clarice Lispector por Carlos Scliar

Iniciei esse texto porque resolvi reler CL e também o que foi escrito sobre CL. Recomecei pela biografia feita por uma amiga de Clarice, Olga Borelli, que a acompanhou durante boa parte de sua vida. Borelli foi tão presente que segurou a mão de Clarice no leito de morte. O título da biografia é Esboço para um Possível Retrato. Não é uma biografia que vai trazer datas e documentos. Trará flashes do cotidiano de Clarice entremeados de textos não publicados e cuidadosamente recolhidos por Borelli. Fiquei maravilhada com esse aqui:

Perspectivas

  1. Não pensar pessimisticamente no futuro.
  2. Só atravessar a ponte quando chegar a hora.
  3. Paulatinamente fazer o livro sem pressa.
  4. Apaixonar-se pelo livro.
  5. Aprofundar as frases, renová-las.
  6. O autor fala, em vez de ‘Deus’, outra escuridão.
  7. Só Ângela fala em Deus.
  8. Não deixar personne me dando des ordres.
  9. Ser tranquila consigo mesma.
  10. Não achar que uma situação é irremediável.
  11. Em todas as frases um clímax.

Cada um vive atordoadamente a própria vida. E se a esse alguém fosse perguntado em que ponto da vida estava, responderia numa sensação de tapa-na-cara e descaso e desaforo e impaciência: O quê? minha vida? E eu lá sei?”

Trecho extraído de Esboço para um Possível Retrato, página 33.

Capa de Esboço para um Possível Retrato, de Olga Borelli

… sair de casa sem pregar uma peça no dia da mentira

… era como se o dia não tivesse existido. Então, a dica era fazer a pegadinha logo que acordávamos porque ninguém ainda tinha se ligado na data. Como era bom, viu? Se a gente não conseguisse pegar ninguém em casa, então teria que ser a caminho da escola. Chegando lá, as chances diminuíam porque a gente já tinha dormido sabendo que era a véspera e que tínhamos que pregar uma peça.

Isso acabou? Espero que não porque era muito divertido.

Existe um dia da mentira histórico que não é o nosso dia da mentira. O ano era 1938. O mês era outubro. Foi quando Orson Wells fez um programa de rádio tão cheirando à verdade que quem ouviu entrou em pânico. Orson Welles estava narrando a invasão da terra por alienistas.

Pense na confusão que deu em algumas cidades dos Estados Unidos. O roteiro foi tão bem feito pela equipe da rádio que os ouvintes acharam que era tudo verdade. A narração foi do livro A Guerra dos Mundos, de H. G. Welles.

O futuro cineasta e os executivos da estação de rádio foram chamados para depor. Sim. Virou caso de polícia. 🙂

No YouTube, você pode saber sobre o dia em que a terra foi invadida por aliens. Olha só o link:

Confira a história no canal O Covil de Jack 🙂