Reler é uma experiência maravilhosa

Foto por Dmitriy Ganin em Pexels.com

Eu li Itinerário de Pasárgada, uma autobiografia de Manuel Bandeira, em 2014. O trajeto do poeta pelo poeta.

Sempre me surpreendi com Bandeira e seus poemas vestidos de uma aparente simplicidade que nos podem levar a subir, subir… sem o triste fim de Ícaro.

Grifei tanto o livro, essa parte me cativou pelo tom descontraído e confessional:

Sim, gosto de ser musicado, de ser traduzido e… de ser fotografado. Criancice? Deus me conserve as minhas criancices! Talvez nesse gosto, como nos outros dois, o que há seja o desejo de me conhecer melhor, sair fora de mim para me olhar como puro objeto.

Itinerário de Pasárgada, p. 104
edição de 2012. capa linda

Reler seus autores preferidos vai te trazer algo maravilhoso. É uma nova forma de olhar que te leva a caminhos luminosos.

Faça isso. Escolha seu autor preferido da vida inteira. Certo, um só não dá. Escolha 3 autores e suas respectivas obras. Releia-os. É inspirador!

… e o palco do Oscar virou uma arena

Em 1972, Charlie Chaplin ganhou um prêmio honorário da Academia Oscar. Ele foi ovacionado por vários minutos. Merecidamente. Abaixo, seguem as palavras do apresentador da cerimônia, que fez um resumo da vida e obra de Chaplin:

“A caminhada do humor é nosso senso de sobrevivência e preserva nossa sanidade. Essas são as palavras de Charlie Chaplin. Assim são estas escritas há mais de 30 anos. Pensamos demais, sentimos muito pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de gentileza e gentileza. Sem essas qualidades, a vida será violenta e tudo estará perdido. Humor e humanidade, os elementos permanentes da consciência artística de Chaplin e seu talento inigualável como ator, escritor, diretor, produtor, compositor. . “

50 anos depois, vemos a barbárie no palco. Will Smith agiu com desonra.

Ele respondeu às palavras de Chris Rock com um tapa que mais parecia um murro. Rock só não caiu porque ele estava numa postura meio que envergada, com as mãos para trás. Se ele estivesse com a postura ereta, Chris Rock teria saído dali direto para o hospital.

Que covardia a de Smith. Bateu e depois que voltou ao seu lugar na plateia ainda continuou falando para Rock “calar a boca de merda”.

A única boca medonha é a sua, Smith.

Chris Rock é que foi a rocha que mantém a humanidade de pé. Ele só foi bem humorado. É o papel dele. Chris é um humorista.

A violência venceu. Se Chaplin foi aplaudido de pé em 1972, eu me pergunto:

Por que Will Smith não foi vaiado?

Por que ninguém defendeu Chris Rock?

Foi um ringue de luxo tendo como espectadores umas criaturas que faturam quantias imensas de dinheiro e parecem viver à margem da sociedade.

A festa do Oscar foi um espelho do que temos hoje. Uma sociedade que dá mais valor a estrelas de cinema e a atletas bilionários.

Vi poucos defendendo Chris Rock no calor do momento, pelo menos nas entrevistas da noite, como John Leguizamo e Rosie Perez.

Smith nunca se desculpou, nem meia hora depois quando segurou a estatueta de melhor ator. Ele se desculpou com a academia, com os colegas, mas em nenhum momento disse “mas que ato horrendo eu cometi contra um ser humano. Desculpas, Chris”. E o que Smith fez foi indesculpável.

Pasme, ele foi aplaudido no discurso falso, claudicante, de um cara pequeno.

Tem algo de muito errado no modo como vemos o mundo. A plateia de 1972 ovacionou Charles Chaplin. A de 2022 aplaudiu Will Smith. A guerra venceu, todos nós perdemos.