O silêncio e as vantagens

Você pode dar um roteiro para 7 diretores filmarem. E cada um contará a história de um jeito diferente. Cada um terá um olhar peculiar. E quanto mais a gente se fortalece, mais o olhar se firma, mais a gente se aceita e pode se aprimorar dia a dia. Falo isso ao lembrar de dois filmes: O silêncio de Melinda (Speak, 2004) e As vantagens de ser invisível (The Perks of Being a Wallflower, 2012).

Amanhã falarei um pouco sobre cada um deles. Até lá. Muita paz. Um abraço.

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é casa, é jardim

Foto por Mike em Pexels.com

No dia 18 de outubro de 2017, escrevi para minha mãe:
… são tantas as obras que a senhora realizou. E agora, quer dar concretitude ao sonho da Vila das Margaridas, uma casa-jardim para abrigar os idosos que não podem mais morar nas suas residências por motivos diversos. Idosos que precisam de muitos cuidados ao fim das suas trajetórias.

Mãe, a senhora sempre auxiliou os outros e às vezes eu me ressentia devido ao pouco tempo que restava depois das suas horas de trabalho como revendedora da Avon e da Christian Grey. A senhora andava pelas ruas de Petrolina e Juazeiro com uma sacola pesada, entregando encomendas. Eram desodorantes, colônias, hidratantes. Vem daí o seu hábito de até hoje presentear tanta gente com o sabonete Alma de Flores? A senhora que gosta tanto de começar os textos das campanhas de arrecadação de alimentos com a frase “Fica sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas, nas mãos que sabem ser generosas.” Mãe, consegui finalmente compreender a sua dedicação ao povo, aos que poucas oportunidades tiveram na vida. A senhora sempre abriu a porta da sua casa quando ainda nem havia esses imensos portões amuralhando Petrolina. Obrigada a construir um muro na frente do seu lar, a parede sempre foi baixa para enxergar quem passava pedindo ajuda. Tô falando da nossa casa na Rua da Harmonia, Vila Mocó, bairro chamado agora de Jardim Paulo Afonso. Foi na Rua da Harmonia que a senhora começou distribuindo sopa pra quem tinha fome.
Depois, me lembro, a senhora fez uma campanha para a aquisição de baldes de lixo para todos os moradores, aqueles feito de pneus;  era uma espécie de bolão solidário, em que cada um pagava um valor e iam sendo contemplados.

  • campanha do saneamento;
  • plantio das árvores no bairro inteiro;
  • construção da Escola Nosso Espaço;
  • Grupo Vida Nova de Terceira Idade;
  • unidade da Nova Semente na Rua Bahia e aí, começo a chorar escrevendo isso.
Foto por SHVETS production em Pexels.com

Tudo o que a senhora construiu foi graças à sua a força, apoiada pela família e amigos. Mãe, tenho que parar de escrever e correr pra ter dar um abraço bem forte porque hoje a senhora completa 82 anos de vida!

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… adivinha

Eu acho que gosto de manga…

Estava vendo umas fotos. E percebi a recorrência de crianças chupando manga. Sabe aquela saborosa que só quem vive no nordeste sabe? No litoral, a campeã é a manga rosa. No sertão tem que ser a manga espada. É a melhor. É a mais barata. É tipo o vira-lata das frutas. Meu irmão uma vez se viu numa situação periclitante. Ele estava sozinho cuidando do filho e veja só, claro que não entendeu nenhuma instrução que a esposa deu quanto a preparar o leite. Que consistia em ferver a água, acrescentar leite em pó, agitar, deixar esfriar e dar morninho pro filho. Qual. Meu irmão não teve habilidade suficiente para cumprir a tarefa, as horas avançaram e o menino começou a chorar. De fome. Ele ainda era um bebê, tinha uns 11 meses de idade, pois sabe o que o salvou? Sim. Uma bela manga espada madurinha. Bastou um furinho e a mamadeira estava pronta. Foi a salvação viu?

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Já já darei um título

Eu tenho a força! Foto por Erik Mclean em Pexels.com

— Você é índia branca que cupim que não rói.  Foi o que o sogro disse para a nora, Valmira. Ela contou que esse foi o maior elogio que recebeu em toda sua vida. Criou dois filhos sozinha. Aos 79 anos, olha-me com um manto de azul profundo. Seus olhos são duas cortinas em que consigo captar todo o pulsar da vida. Cheia de bom humor, disse-me que passou um mês na casa de uns desconhecidos.

— Vieram me buscar, sabe? Fui para uma casa bonita, um pouco longe daqui. Trataram-me tão bem. Deram-me tantos mimos. Faziam e traziam o meu café na cama, veja só.

— E a senhora não consegue se lembrar quem eram?

— Não. Mas isso não importa, né? O que importa mesmo é que passei uns dias maravilhosos com um casal bonito que tinha um filhinho. Será que um deles era filho meu? Pois eu tenho certeza de que tenho uma filha e um filho. Vou te mostrar umas fotos deles…

Valmira sofre de Alzheimer. Ficou caduca, que era o que se dizia do idoso que esquecia de coisas e, principalmente, de pessoas.

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Maria Ribeiro, uma atriz brasileiríssima

Foto por Aaron Kittredge em Pexels.com

Ao ler Vidas Secas para o meu filho, tive que interromper porque ele disse que estava se sentindo muito mal pela situação da família retratada na obra de Graciliano Ramos. E olha que o colégio em que estuda gosta de literatura bélica. Ele já encarou A Mala de Hannah, de Karen Levine; e vai ter que enfrentar, ainda neste ano, Terras Sonâmbulas, de Mia Couto, sobre a guerra civil em Moçambique.

Cartaz de autoria da artista plástica Lygia Pape

Realmente, são vidas parcas as de Sinhá Vitória e do marido, Fabiano; do filho mais velho, do filho mais novo, do papagaio e da cadela Baleia. Vidas Secas partiu de uma série de contos publicados em vários jornais. O primeiro conto intitulou-se Baleia. A opção por escrever short stories, como chamam os norte-americanos, deveu-se a um condicionante: a dificuldade financeira de Ramos o obrigava a publicar logo para receber imediatamente o pagamento. Não sei em que o autor percebeu que estava escrevendo um romance. Se foi um acaso ou não. Eram histórias independentes que formavam um todo. Vidas Secas, publicado em 1938, é de partir o coração. E é literatura inovadora, com linguagem enxuta para descrever a sequidão do Sertão de Alagoas.

Vidas Secas virou filme nas mãos de Nelson Pereira dos Santos e teve uma interessante carreira internacional. Em 1964, concorreu no Festival de Cannes junto com Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. Neste ano, saiu vencedora a película Os Guarda-chuvas do Amor (Les parapluies de Cherbourg).

O que me motivou a escrever sobre Vidas Secas foi conhecer a luminosa Carla Fernanda, parente da atriz Maria Ribeiro, o que me levou a rever o filme, visto pela primeira vez quando eu fazia faculdade de jornalismo em 1995. No dia 10 de setembro de 2021, notei que a atriz que encarnou o papel de Sinhá Vitória em Vidas Secasainda não possui um verbete na Wikipédia. Ribeiro tem 98 anos de idade e vive na Suíça. Voltou a trabalhar com Nelson Pereira dos Santos em O Amuleto de Ogum e n´A Terceira Margem do Rio, baseado no conto homônimo de João Guimarães Rosa

Filmografia de Maria Ribeiro

Vidas Secas (1963), Nelson Pereira dos Santos.

A Hora e a Vez de Augusto Matraga (1965), Roberto Santos.

Os Herdeiros (1970), Cacá Diegues.  

O Amuleto de Ogum (1974), Nelson Pereira dos Santos.

Soledade (1976), Paulo Thiago.

Perdida (1976), Carlos Alberto Prates Corrêa.

A Terceira Margem do Rio (1994), Nelson Pereira dos Santos.

As Tranças de Maria (2003), Pedro Carlos Rovai.

Foto por Carolyn em Pexels.com

=== Fontes onde bebi informações para escrever este artigo:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Vidas_Secas_(filme)

https://www.mulheresdocinemabrasileiro.com.br/site/mulheres/visualiza/297/Maria-Ribeiro/3

http://bases.cinemateca.gov.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p&nextAction=lnk&exprSearch=ID=003141&format=detailed.pft

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sou o quê

Foto por icon0.com em Pexels.com

Não me mantenho. Me deixei anular. Saber que permiti que minha nulidade aflorasse ajuda em alguma coisa?

— Não seja tão dura consigo mesma.

— É que às vezes chega o momento que é o momento da desesperança.

— Vai passar.

Amanhã, leva a byke pro conserto.

Foto por Flo Maderebner em Pexels.com
Foto por Roman Pohorecki em Pexels.com
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