Arte é mergulho

Nitimur in vetitum ressoava na cabeça de Mariana enquanto caminhava em direção à galeria em que haveria, veja só, sua própria vernissage. Seria sua noite e ela não sabia se aquelas vinte telas penduradas traduziam bem a sua alma. E daí se não expressarem o que tentei reproduzir? Eu trabalhei. Eu produzi. Não esperei a inspiração chegar. Expirei. Suei. E estou na minha primeira exposição individual. Nitimur in vetitum. Temos tanta inveja dos artistas. Os artistas se permitem. Não há limites para a imaginação. Criadores não têm medo de naufragar. O naufrágio alimenta a busca. Todo artista busca. O quê? Não importa. Nitimur in vetitum. O escritor brasileiro José Castello disse que enviou um conto de sua autoria para Clarice Lispector. Passou-se muito tempo e sem obter nenhuma resposta. Um dia, o telefone toca e era CL:

— Eu quero dizer que o senhor é um homem muito medroso e, com medo, ninguém escreve! 

Clarice bate o telefone.

Nitimur in vetitum. O espanto move poetas. Finitas, as mãos cosem palavras. São doces as infinitas possibilidades da queda. Cobertas de sorvete as paredes do abismo da criação. Cospe flores mofadas quem desistiu de si mesma. Existirmos, a que será que se destina? Eu não desisti de mim mesma. Sofri. Mas quem não sofreu? É que a gente se interrompe. O tempo todo. Interrompidas somos, mas continuamos inteiras. I´ll miss myself so bad when I die. 206 é a quantidade de ossos do corpo humano. Mariana viu essa informação numa palavra-cruzada. Gosta de filmes e-s-t-r-a-n-h-o-s. Curte David Lynch. Nitimur in vetitum.

Foto por Antonio Sokic em Pexels.com

Marc Chagall e a atração louca pelo voo. Eu sei que na palavra dEUS há vários EUS. Dia chuvoso. Rugosa a vida das aranhas. Uma borboleta azul começou a paquerar uma coruja. Cerzideira, a formiga observa o magnífico encontro.  Lancei-me ao proibido. Porque é isso que os artistas fazem: vão em direção ao proibido. Vou sentir tanta falta de mim quando eu morrer, afirmou Macabéa, personagem de Clarice Lispector, no esplendoroso A hora da estrela. Foi Ovídio quem escreveu: Nitimur in vetitum. Significa lançamo-nos ao proibido; o que me lembra a epígrafe escolhida por James Joyce no seu Retrato do artista quando jovem: Et ignotas animum dimittit in artes. Foi citada em latim, é de autoria de Ovídio. Em inglês, traduzido assim: And he turned his mind to unknown arts. Para o português, eu verteria deste jeito: E ele se voltou para artes desconhecidas.   

José Castello parou de sentir medo?

Enfim, bora escrever. Seremos intrépidos.

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