Arte é combate

Vincent Van Gogh lia muito. E gostava de anotar o que marcava o coração. Numa carta que escreveu ao seu irmão Théo, VG citou Millet de Sensier:

“A arte é um combate — na arte é preciso dar o sangue.

Eu preferiria não dizer nada do que me exprimir frouxamente.”

Artistas realmente podem sangrar na tentativa de dizer da forma que acreditam que deve ser. A necessidade de dar forma àquele estalo criativo que veio em sonho, numa conversa, num olhar ou durante a labuta diária.

“… é por isso que às vezes sinto a necessidade de me exprimir com um rude lápis de carpinteiro ao invés de um fino pincel”, afirma Van Gogh corroborando a imensa vontade que guia os que se atrevem a fazer arte. Para que o trabalho seja executado, não importam as ferramentas. Às vezes, um toco de carvão será responsável por moldar o grito que precisa sair. Qualquer coisa que estiver em nossas mãos. Vamos deixar de dar desculpas. Vamos agir. Vamos criar.    

Van Gogh: Noite estrelada

| Trechos extraídos de Cartas a Théo: p. 68. L & PM Pocket, Porto Alegre, 2014

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O que aconteceu, miss Simone?

Que história a de Nina Simone. Parte da vida dela está num documentário dirigido por Liz Garbus.

Nina foi batizada de Eunice Kathleen Waymon, mas teve que mudar de nome. Precisou, para sobreviver,  cantar a “música do diabo” em bares americanos e não queria que a mãe descobrisse. A meta de Nina Simone era se tornar uma pianista clássica. Queria tocar Bach.

Enfrentou preconceitos. Enfrentou a pobreza. Enfrentou o marido que batia nela. Definiu assim a liberdade: “É não ter medo.”

Foi defensora dos direitos dos negros nos Estados Unidos. Viva Nina Simone!

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Errare humanum est

Errare humanum est. Errar é humano. Não se trata do verbo relacionado às besteiras que cometemos, e sim do errar, do vagar, do flanar, do caminhar. Interessante notar que o errar do dito popular se refira às bobagens que fazemos no caminho. Porque a gente só comete erros se tentar.

Errou? Continue. Seja um errante.

Tentar, lógico, implica buscar vários caminhos até encontrar o ideal, não necessariamente o mais fácil.

Há algumas pessoas sortudas que encontram rapidinho seus caminhos. Outras, a maioria de nós, sofre para achar. Porque primeiro, é preciso se achar, se descobrir. Para depois buscar. Nessa jornada, necessário é olhar para dentro da gente. Difícil quando há tanto para ver do lado de fora.

Foto por Artem Beliaikin em Pexels.com

Uma forma de tentar se encontrar? Meditar. Ao meditar, procuraremos. Procuraremos dentro de nós mesmos. Há um grande risco nessa procura. Um risco doce.

Quando a gente finalmente se encontra, a gente se depara com Deus. Não é mais um duelo. É um encontro. Um encontro fundamental para as nossas existências. Percebeu que na palavra dEUs, está EU?

Obs.: a anjinha da foto tirada (1872) por Julia Margaret Cameron é Rachel Gurney. O nome da foto: I wait.

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Clarice de mau-humor

Os cronistas faziam seus textos diariamente ou semanalmente para um jornal que seria impresso.  A tarefa de escrever, então, era um compromisso sério. Havia um prazo para terminar e enviar. Era o cruel dead line, como se usa na rotina do repórter de jornal, revista ou televisão. Além de concluir o texto, o cronista ainda tinha que enviar o texto para a redação.

Na época em que Clarice Lispector escrevia, não havia computador. Só máquinas de escrever. O texto tinha que ser escrito rotineiramente. Não dava para esperar inspiração. Tinha que trabalhar. Não havia tempo para sonhar. E olha que Clarice tinha um espaço aos sábados no Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro.  Escrever por obrigação foi um desafio e tanto. Porque ela se dizia amadora e não profissional. Se a gente for ver a definição de amadora, vai descobrir que é aquela pessoa que faz algo por amor. E não por dever. Nesse sentido, Clarice era uma adorável amadora. E todo cronista que se preze um dia vai explodir:

Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo.

E criaram o Dia dos Analfabetos.  Só li a manchete, recusei-me a ler o texto do mundo, as manchetes já me deixam em cólera.

| Clarice Lispector. A Descoberta do Mundo, trecho de crônica publicada no Jornal do Brasil em 14 de outubro de 1967.

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Lancei o meu grito bárbaro sobre os telhados do mundo

A origem onomatopeica da palavra bárbaro, segundo Stephen Ullmann, “começou por ser uma imitação dos ruídos bizarros produzidos por uma língua estrangeira incompreensível, mas nada do significado e da motivação originais permanece no inglês brave, francês brave, alemão brav etc., que, com todas as possibilidades, derivam da palavra latina; não estará afastado do primitivo o efeito da ‘barbarous dissonance ‘ de Milton (Paradise Lost, Livro VII, v. 32) ou no verso de Walt Whitman: “I sound my barbaric yawp over the roofs of the world .” (Song of Myself)

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Artistas buscam

Temos tanta inveja dos artistas. Porque os artistas se permitem. Não há limites para a imaginação.
Sem medo de naufragar. O naufrágio alimenta a busca. Todo artista busca. O quê? Não importa. Nitimur in vetitum: “Lancemo-nos ao proibido”! (Ovídio)

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Nelle Harper Lee

“Essas pessoas certamente têm o direito de pensar assim, e têm todo o direito de ter sua opinião respeitada – considerou Atticus. – Mas antes de ser obrigado a viver com os outros, tenho de conviver comigo mesmo. A única coisa que não se deve curvar ao julgamento da maioria é a consciência de uma pessoa”. O trecho é de O Sol é para Todos (To Kill a Mockinbird), de Harper Lee, que faz um retrato cru e, ao mesmo tempo delicado das relações entre negros e brancos nos Estados Unidos. Atticus é advogado e precisa defender Tim Robinson numa comunidade extremamente racista. É mais do que um livro sobre tribunais. É também sobre os sabores e dissabores da infância.

O Sol é para Todos me remete a O Apanhador no Campo de Centeio (J.D. Salinger) por causa do tom memorialista e da voz da narradora, Scout Finch, que brinda o leitor com tiradas engraçadas.

Nascida no estado do Alabama, a norte-americana Nelle Harper Lee foi funcionária de empresas aéreas quando morava em Nova Iorque e contribuiu na elaboração do livro-reportagem A Sangue Frio (In Cold Blood), de Truman Capote

Em 2014, a autora (1926-2016) assinou acordo com a HarperCollins para lançar e-book e áudio-livro de To kill a Mockingbird. Num informativo distribuído à imprensa durante o lançamento, Lee disse que ainda se considerava da velha-guarda, que gostava da poeira dos livros antigos e das bibliotecas, estava surpresa e grata com a longevidade da obra e comemorou: — “Este é um Mockinbird para a nova geração!”

Em 1962, To Kill a Mockinbird foi para a telona

—- Ah, obrigada, Tetêka rebelde J, por ter me emprestado O Sol é para Todos.

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Meu querido Fred

“É preciso estar firmemente assentado em si, é preciso sustentar-se bravamente sobre as duas pernas, caso contrário não se pode absolutamente amar.” (*) A frase é de autoria do filósofo que disse sim à vida: Friedrich Wilhelm Nietzsche. Ele nasceu em Roecken, na Saxônia, no dia 15 de outubro de 1844. Morreu em 1900, no dia 25 de agosto. No enterro, o amigo Peter Gast disse: “Sagrado seja teu nome para todas as gerações vindouras”. Sim, sim, sim.

ECCE HOMO – como alguém se torna o que é , autobiografia que Nietzsche escreveu algumas semanas antes de sofrer um colapso nervoso que o fez perder completamente a razão. Tinha acabado de completar 44 anos de idade e resolveu fazer um balanço da vida:

“Sou um discípulo do filósofo Dionísio, preferiria antes ser um sátiro a ser um santo.” (p.17)

“Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito para ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa, mas quão tranquilas banham-se as coisas na luz! Com que liberdade se respira.” (p.18)

“As palavras mais silenciosas são as que trazem a tempestade, pensamentos que vêm com pés de pomba dirigem o mundo.” (p.19) (**)

“Aí não fala um fanático, aí não se ‘ prega’, aí não se exige fé: é de uma infinita plenitude de luz e profundeza de felicidade que vêm gota por gota, palavra por palavra – uma delicada lentidão é a cadência das falas. Tais coisas alcançam apenas os seletos; ser ouvinte é aqui um privilégio sem igual; não é dado a todos ter ouvidos para Zaratustra…” (p. 19)
“O homem de conhecimento deve poder não somente amar seus inimigos, como também odiar seus amigos.” (p.20)
“Eu não sou um homem. Sou dinamite.” (p.109)

() p.58 (*) De Assim falou Zaratustra
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Clarice e Clarissa tecem horas e bordam pétalas

A tecedora das horas seria o título de um texto que versaria sobre um trecho da obra de Clarice Lispector, minha mais doce obsessão. O título se referia a um fragmento do livro de CL, Um Sopro de Vida (Pulsações), em que o ato de tecer é mencionado quando o narrador diz que a personagem Angela Pralini não se satisfaz em escrever crônica para jornais. Aí, deparei-me com um texto de uma quase xará de Clarice, a também escritora Clarissa Loureiro, que inicia assim seu poema sobre a necessidade de bordar:

É preciso aprender a bordar antes de morrer. Sim, é preciso.

Clarissa loureiro

Alguns chamariam de coincidência o fato de Clarissa começar o poema com o ato de bordar, que tem muito a ver com o ato de tecer. Em vez de coincidência, prefiro chamar o ocorrido de borboleta lírica. O que fica em mim quando leio esse poema? A sensação de bruma, neblina, mas também de um passeio por um jardim, pétalas lançadas ao vento.E de liberdade. Liberdade que é a ausência de medo. Seremos capazes de aprender a bordar? Percorreremos jardins e deixaremos um mavioso aroma dos erros que cometemos.

Juliette Binoche em cena do filme A liberdade é azul, de Krzysztof Kieslowski

Segue o texto completo de Clarissa Loureiro:


É preciso aprender a bordar antes de morrer. Sim, é preciso.
É preciso aprender a ouvir o tempo,com a serenidade dos velhos, com a acuidade dos animais, com a paciência das mães, com a tolerância das flores.
Quando era mais jovem, ouvi de meu primeiro namorado uma dolorosa saudade: ” a tua loucura não te deixa entediar”. A ansiosa menina despedaçava as circunstâncias como pétalas de rosas jogadas ao acaso. E deixava um doce aroma de seus erros por onde passava. “Toda loucura será perdoada?” Talvez, na juventude.
O jovem tem o álibi da ignorância do prever, já que não viveu o bastante para observar da cadeira de rodas de sua existência a enfadonha repetição de seus erros mascarados de anseios.
Hoje, sentada nesta mesma cadeira de rodas, aceito minha condição de pítia. Deixo os chinelos ao lado da cama à espera que o tempo melhore, ciente de que nem sempre se pode estar no controle. Saibamos silenciar diante do inevitável.
Se eu soubesse bordar, colocaria minha cadeira diante do entardecer e deixaria a agulha passear por entre meus dedos, parca de minhas sensações.

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