Clarice Lispector e os rudes ritmos ritualísticos da adolescência

Há essa atmosfera delicadamente adolescente na obra Laços de Família (1960), especialmente nos contos Mistério em São Cristóvão e Preciosidade, peças que são resultantes do esmerado labor de Clarice Lispector, expert em atar e desatar narrativas do processo de adolescer experimentado por suas personagens. E é preciso notar e anotar que, logo na estreia como romancista, enxergam-se marcas do espírito teen em Joana, apesar de essa heroína ser caracterizada como adulta, casada inclusive.
“Encostando a testa na vidraça brilhante e fria olhava para o quintal do vizinho, para o grande mundo das galinhas-que-não-sabiam-que-iam-morrer. E podia sentir como se estivesse bem próxima de seu nariz a terra quente, socada, tão cheirosa e seca, onde bem sabia, bem sabia uma ou outra minhoca se espreguiçava antes de ser comida pela galinha que as pessoas iam comer”. (LISPECTOR, Perto do Coração Selvagem, p. 19)
Tal teen spirit ou teen soul corporifica-se nas reminiscências da infância feliz junto ao pai em Perto do Coração Selvagem (1943). N´A Paixão Segundo G.H. (1964), a protagonista passa por algo que não consegue compreender. Essa incompreensão a move por labirintos extremamente cerebrais: “Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda.” (LISPECTOR: A Paixão segundo G.H., p.15). Logo adiante, a personagem busca racionalizar o que lhe ocorrera.
“A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior”. (LISPECTOR: A Paixão segundo G.H., p.15)
Racionalização sujeita a perigos. Se viver é muito perigoso, Riobaldo, escrever sobre o viver também o é. Talvez até com mais intensidade. Escreve-se porque se está vivo. Está-se vivo porque se escreve. A narrativa em primeira pessoa leva o leitor a percorrer uma trajetória abissal, ao passar por caminhos que tiram o fôlego de quem se atreve a passar os olhos por suas páginas.
“A isso prefiro chamar de desorganização pois não quero me confirmar no que vivi – na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro”. (LISPECTOR: A Paixão segundo G.H. , p. 15)
A exemplo de G.H., as personagens sem nome dos contos Mistério em São Cristóvão e Preciosidade também sofrem uma desorganização, bastante comum ao trajeto das criaturas que orbitam o universo ficcional de Clarice Lispector. Personagens que, em algum momento, perdem a estrutura cotidiana que os sustentam: Ontem, no entanto, perdi durante horas e horas a minha montagem humana. (LISPECTOR: A Paixão Segundo G.H., p. 16). Nasce, então, a pergunta: como os personagens se comportam depois do desmonte, de viver essa pane, esse acontecimento? Virginia Woolf optaria por afirmar que “podem acontecer duas coisas: ou a alma é arremessada contra os rochedos e espatifada ou, encontrando algo em que se segurar, lenta e dolorosamente consegue erguer-se da água, tornar a ganhar a terra firme e finalmente emergir por cima de um universo arruinado para explorar um mundo recém-criado em um plano distinto.” (WOOLF, Virginia: Flush, p. 66). O que seria? Destruição ou reconstrução? Essa era a questão.
Questão que, em se tratando de Clarice, nunca será facilmente resolvida. Haverá, com certeza, desnorteio. A bússola é perdida de uma vez por todas. Vide o que ocorre com a personagem G.H.. Haverá também o norteio. Finalmente encontrada, a bússola de Joana, de Perto do Coração Selvagem, a faz viajar e deparar-se com todo um oceano. Lóri, de Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969), se verá diante de dois pontos (o modo como Clarice finaliza a narrativa). Ana, do conto Amor, apagará a flama do dia.
As criaturas gestadas por Clarice Lispector submetem-se à visão de rosas, de um cego mascando chicletes ou de três mascarados num jardim, que é o que ocorre em Mistério em São Cristóvão. Preciosidade discorre sobre como uma menina é atacada por dois rapazes no meio de uma rua.
“O que se seguiu foram quatro mãos difíceis, foram quatro mãos que não sabiam o que queriam, quatro mãos que a tocaram tão inesperadamente que ela fez a coisa mais certa que poderia ter feito no mundo dos movimentos: ficou paralisada”. (LISPECTOR: Laços de Família, p. 112)
A trajetória da mocinha de 19 anos de Mistério em São Cristóvão é oposta à da garota de 15 anos de Preciosidade. Entretanto, reconhece-se nesses dois contos a existência de ritos que se assemelham aos ritos de passagem: “E então já não se apressou mais. A grande imolação das ruas. Sonsa, atenta, mulher de apache. Parte do rude ritmo de um ritual.” (LISPECTOR, p. 109).
O transpor da adolescência para a fase adulta, apesar de que, cronologicamente, a personagem de Mistério já possa ser considerada adulta – porém, lembremos que para o escalar do tempo dos norte-americanos, ela ainda seria teen.
O que acontece em Preciosidade acontece antes do jantar, junto com a família. O que acontece em Mistério acontece depois do jantar, acontecimento que acaba servindo como um anti-clímax da narrativa, anunciando, com toda a intensidade, o que está por vir. Em Mistério em São Cristóvão, o rito é sutil e, ao mesmo tempo, visível no corpo, simbolizado pelo surgimento de um fio de cabelo branco na cabeça da personagem.


Em Preciosidade, há um rito de passado forçado, violento, do qual a personagem está fadada a suportar como fatalidade. Nesse momento, o narrador intervém: Mas como voltar e fugir se nascera para a dificuldade? (LISPECTOR: Laços de Família, p. 110)
Cada pessoa percorre caminhos, seja pela via da dor, seja pela via da alegria. A menina de Preciosidade transforma-se numa mulher depois do que lhe ocorre: torna-se vaidosa ao notar descuidadas suas unhas – há a presença feminina do que nesse amontoado de cálcio que os humanos batizamos de unha: “Preciso cuidar mais de mim.” (LISPECTOR: Laços de Família, p. 115). E que ainda deverá exigir sapatos novos da família.
Enquanto isso, a mocinha de Mistério entrará num túnel do tempo em que se quedará na infância: “Toda a construção laboriosa de sua idade se desfizera, ela era de novo uma menina.” (LISPECTOR, Laços de Família, p. 144)
Só depois é que ela vai recuperar sua verdadeira idade. (LISPECTOR, p.144) De algum modo, as duas personagens se metamorfoseiam, uma temporariamente, a outra, talvez possa vir a se tornar um pássaro de fogo.
Os olhares de Mistério fundam uma unidade, um círculo quadrado, segundo o narrador.
“Nenhum espectro viu o outro desaparecer porque todos se retiraram ao mesmo tempo, vagarosos, na ponta dos pés. Mal, porém, se quebrara o círculo mágico de quatro, livres da vigilância mútua, a constelação se desfez com terror”.
(LISPECTOR: Laços de Família, p. 143)
“Círculo mágico de quatro”: uma referência incomum à figura geométrica mais popular do nosso planeta, ao passo que em Preciosidade, a personagem sempre foge de ser examinada por olhos humanos e no entanto termina sendo tocada no corpo só seu.
Nenhuma das duas personagens vai expressar verbalmente o que lhes ocorrera às suas respectivas famílias. Verbalmente não. A histeria, o nervosismo e o novo modo de se portar da menina de Preciosidade à mesa serve como um comunicado.
Mas no jantar a vida tomou um senso imediato e histérico: – Preciso de sapatos novos! Os meus fazem muito barulho, uma mulher não pode andar com salto de madeira, chama muita atenção! Ninguém me dá nada! – e estava tão frenética e estertorada que ninguém teve coragem de lhe dizer que não os ganharia. Só disseram: – “Você não é uma mulher e todo salto é de madeira”.
(LISPECTOR: Laços de Família, p. 116)
O que essas duas figuras do universo ficcional de Lispector possuem em comum? Ou de diferentes? A mocinha de Mistério dá-nos a entender que ela tem uma intensa vida vivida no espaço doméstico, tanto que o que ocorre é no jardim da sua casa. Em Preciosidade, a personagem gosta de estar nas ruas, nos ônibus, na escola. Percebe-se, então, que há três espaços geográficos bem definidos: a casa, a escola e as ruas. Em casa, há o relacionamento com a empregada. Na escola, chama a atenção, pois é naturalmente inteligente (LISPECTOR, 1995, p.106). Nas ruas, apesar do medo que a acompanha, é uma anônima, anonimato que impulsiona sua alegria em estar viva. Para cada lugar, assenta-se uma máscara de proteção, de disfarce, uma couraça. Tema recorrente na obra de Clarice. Em Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, o narrador afirma que Lóri “usava a máscara de palhaço excessiva. Aquela mesma que nos partos da adolescência se escolhia para não se ficar desnudo para o resto da luta”. (LISPECTOR: Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, p. 44)
No transcorrer desse texto – um libelo – que discorre sobre as máscaras nossas de cada dia, o narrador explica que as fabricamos no decorrer das nossas existências.
“Inclusive os adolescentes, que eram de rosto puro, à medida que iam vivendo fabricavam a própria máscara. E com muita dor. Porque saber que de então em diante se vai passar a representar um papel que era de uma surpresa amedrontadora. Era a liberdade horrível de não-ser. E a hora da escolha”. (LISPECTOR, Laços de Família, p. 44)
Nos ritos adolescentes testemunhados pelo leitor de Clarice Lispector, identificam-se as reações das famílias. São ritos individuais. Cada pessoa que acenda sua própria fogueira, arda ou permita que a chama feneça. A família de Preciosidade percebe alguma coisa de diferente na garota, pois não tem coragem de negar a demanda por sapatos novos. As personagens dos dois contos têm direito ao grito, grito que é ouvido pela família de Mistério. A menina de Preciosidade poderia reivindicar um grito sobre-humano logo depois do que viveu, todavia esse grito ficará represado por algum tempo.
‘Tinham medo que ela gritasse e as portas das casas uma por uma se abrissem’, raciocinou, eles não sabiam que não se grita. (LISPECTOR: Laços de Família, p. 113).
Quando esse rito irromper, será mais que um grito. Será um urro. Animalesco mesmo. E ocorrerá no lavatório da escola “onde, diante do grande silêncio dos ladrilhos, gritou aguda, supersônica: estou sozinha no mundo. Nunca ninguém vai me ajudar, nunca ninguém vai me amar! Estou sozinha no mundo!” (LISPECTOR: Laços de Família, p.114)
Ao lado da mocinha misteriosa de 19 anos, estarão a avó e a mãe: “Enquanto isso, a casa iluminara-se toda. A mocinha estava sentada na sala. A avó, com os cabelos brancos entrançados, segurava o copo dágua, a mãe alisava os cabelos escuros da filha, enquanto o pai percorria a casa”. (LISPECTOR: Laços de Família, p. 143)
Essa família vai ficar horrorizada mesmo é com o irromper de um fio de cabelo descolorido: “Mas na imagem rejuvenescida de mais de uma época, para o horror da família, um fio branco aparecera entre os cabelos da fronte.” (LISPECTOR, p. 144).
Sempre me atraíram os adolescentes nos universos criados por Clarice Lispector. Em Joana, enxergo sim uma adolescente. Adolescente no sentido de um ser que vive a angústia e a alegria profundas. Em grau máximo. Quando teenagers, éramos mais sentidores. O mundo nos invade a cabeça sem freios. Nosso corpo sofre mudanças tão rápidas. Somos e estamos desajeitados. Há um certo desconforto em se ter um corpo, um corpo que tem que ser exposto. Há uma ânsia de viver, de ser e de se mostrar misturada à necessidade de se esconder. Há o medo de se revelar.
O conto Preciosidade é magistral pois consegue dizer muito desse turbilhão de emoções que acontece nessa fase preciosa que é a adolescência, ausente o sentimento de nostalgia. O que há é mais uma constatação de que as coisas são. É inevitável lembrar de outros contos de Clarice que trazem adoleSeres. O Beijo é de uma extrema simplicidade revestida de delicadeza ao perfilar um rapaz que conta para a namorada a primeira vez em que beijou. Na verdade, ele mais recebeu do que deu um beijo.
“Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele…
Ele se tornara um homem”. (LISPECTOR: Laços de Família, p. 174 e 175)
Felicidade Clandestina é a via-crucis de uma menina que recebe a promessa de conseguir emprestado o livro Reinações de Narizinho, da filha de donos de uma livraria. Essa guria vai torturá-la por dias e dias exibindo o objeto de desejo da outra como uma isca inalcançável. Até que a mãe da algoz descobre as artimanhas da filha e entrega a obra para a vítima dizendo-lhe: E você fica com o livro por quanto tempo quiser. A personagem alcança-se o êxtase. Trata-se de prazer. Trata-se de alegria. Intensa alegria.
“Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passar pela casa, adeiei mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.” (LISPECTOR: Felicidade Clandestina, p. 54)
Começos de uma Fortuna, conto também de Laços de Família, narra a história de um rapazinho que possui uma preocupação cada vez mais crescente na sua pequena grande vida: o desejo/necessidade/vontade de acumular dinheiro. E a atmosfera da vida vivida dentro de casa e a vida vivida nas ruas da cidade:
A vida fora de casa era completamente outra. Além da diferença de luz – como se somente saindo ele visse que tempo realmente fazia e que disposições haviam tomado as circunstâncias durante a noite – , além da diferença de luz, havia a diferença do modo de ser. Quando era pequeno a mãe dizia: “Fora de casa ele é uma doçura, em casa um demônio. Mesmo agora, atravessando o pequeno portão, ele se tornara visivelmente mais moço e ao mesmo tempo menos criança, mais sensível e sobretudo sem assunto”. (LISPECTOR: Laços de Família, p. 132)
Ele pretende se tornar um homem, depois um marido, ser rico, muito rico. No final, a pergunta premente, mais do que necessária: “ — Papai, chamou Artur docilmente, com as sobrancelhas franzidas, papai, como são promissórias?” (LISPECTOR, 1995, p. 137).
Você sorriu. Também eu.

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