É força sair sem olhar para trás de quem te te amou? É força?

Atena foi nomeada por Clara. A mãe, Clarissa, adorou a escolha.

Atena convivia com outro bicho. Um cachorro. Ou melhor, uma cadela: Mély, raça amortecedor Cofap. Não vou falar como era o convívio entre esses seres singulares. Do que posso falar é que Atena desapareceu. Fugiu. Escafedeu-se. Nem esse desaparecimento realmente importa. Importa mesmo é a busca que mãe e filha empreenderam. Saíram no meio da noite atrás da fujona. E parece que naquela noite, os gatos, todos os gatos do bairro resolveram estar nas ruas. Havia uns vinte em cada terreno baldio. Em cada banco da praça. Em cada esquina. Como encontrar Atena no meio de tantas assembleias felinas, se não possuía identificação alguma. Nem uma mancha de nascença, nem coleira. Gatos também usam coleiras, fato difícil de assimilar já que a liberdade sempre esteve associada aos emissores de miaus. Achava que só cachorro precisava de coleira.

Gato é bicho das ruas. Sorrateiro, utiliza a casa dos seus donos para passar uma temporada. Não se apegam às pessoas. Gatos apegam-se aos tetos que os abrigam. Espertos, usam o lar para passar uma temporada. É pensão. É hotel. Não é residência. Vida de gato é vida boa? Quanto à Atena, provavelmente já encontrou guarida. Terá outros proprietários que não serão seus proprietários. Gatos não curtem propriedade privada. Só as aproveitam para estarem e abusarem da estada. Atena voltará? Não sei dizer. Desconheço o comportamento desses bichanos. E nem tenho vontade de conhecer. Pois não tenho talento para ser abandonada sem nenhuma despedida decente. Atena, você vai voltar, menina? Acho que você deveria retornar, sabe? Pelo menos dizer adeus. Depois, você poderá partir sem deixar os corações de Clara e Clarissa em pedaços. Gatos não ligam para os sentimentos dos donos? Acho que não. Essa liberdade de ir e vir é destinada aos fortes? É força sair sem olhar para trás de quem te alimentou, te amou, te deu abrigo? É força? Você me diga. É força?  

Foto por Pixabay em Pexels.com

Cuidado com os nomes que damos aos seres. Atena, considerada a deusa virgem, permaneceu assim durante toda a história. Ela pedia aos deuses para não se apaixonarem por ela pois temia compromisso. Ficaria grávida, teria que abandonar as guerras e acabaria por ter uma vida doméstica.

Padrão

Obras literárias para o SSA e Enem

Não curto muito listas obrigatórias, porém se você pretende estudar na Universidade de Pernambuco (UPE), é recomendada a leitura de:

Cartas Chilenas – Tomás Antônio Gonzaga
Antologia – Gregório de Matos
Cronistas do Descobrimento – Antonio Carlos Olivieri e Marco Antonio Villa
Terra Papagalli – José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta
Auto da Barca do Inferno – Gil Vicente

Ao contrário do Sistema Seriado de Avaliação (SSA), o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) não indica obras literárias, mas as que mais caem são:

O Santo e a Porca, de Ariano Suassuna;
A Hora da Estrela | A Descoberta d Mundo – Clarice Lispector;
O Livro do Desassossego – Fernanda Pessoa;
Vidas Secas – Graciliano Ramos;
Ensaio sobre a Cegueira | Os Poemas Possíveis – José Saramago e
A Causa Secreta, conto de Machado de Assis.

Padrão

O mapa da gramática

Estudar substantivo, verbo, adjetivo, orações sindéticas, assindéticas; substantivas, subjetivas, adjetivas… é muita coisa! Passamos anos e anos estudando esses assuntos e parece que não aprendemos nada.
Comecemos por tentar relaxar porque tudo vai dar certo. Nada como um dia atrás do outro e uma noite no meio. Há solução. Para isso, precisamos de alguma bússola; a primeira é a mais simples: ler. Comece pelo que lhe interessa.
Toda forma de leitura vale a pena. Quanto mais lemos, mais nos familiarizamos com gêneros, modos de fazer literatura. Nesse caminho, encontramos autores loucos e outros nem tão loucos assim. Uns engraçados e outros trágicos.
Há livros para crer. Para descrer. Para rir. Para chorar. Para aprender. E para ser.
Nessa proposta de Mapa da Gramática, vamos tentar partir de um texto. Não necessariamente escrito pois a oralidade é o que mais nos constrói. Né? Quem são os melhores professores em todo planeta? Nossos pais – que nos ensinaram a falar. E eu tenho certeza de que nesse processo ninguém estava falando em pronomes, adjetivos e substantivos.

Alguns conceitos essenciais

  • Frase
    É um enunciado linguístico que, independentemente de sua estrutura ou extensão, traduz um sentido completo em uma situação de comunicação.
    Interrogativa | Exclamativa | Declarativa | Imperativa
    Cuidado com a porta.
    O que é isso?
    Cachorros são cachorros e gatos são gatos.
    Cuidado com o cão.
    Quanta alegria há no seu olhar.
  • Oração
    É um enunciado que apresenta uma estrutura sintaticamente caracterizada pela presença de um verbo.
    Entrem!
    Conhecemos vários lugares interessantes durante a viagem.
    A prova estava muito fácil.
    Ventou bastante hoje pela manhã!
  • Período
    É o enunciado de sentido completo formado a partir de uma ou mais orações. Os períodos são classificados em:
    Simples: uma só oração
    Composto: duas ou mais orações
    Quando o período é simples, a oração que o compõe é chamada de oração absoluta.

Funções Sintáticas

Os termos que compõem uma oração são classificados de acordo com as relações sintáticas que estabelecem entre si.
Das diferentes chances e possibilidades dessa relações, surgem as funções sintáticas. A Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB), um 1959, um termo de uma oração possui uma das seguintes funções:

Sujeito
Predicado
Complemento verbal (objeto direto ou indireto)
Complemento nominal
Agente da passiva
Adjunto adnominal
Adjunto adverbial
Aposto
Vocativo

Pelo grau de importância que carregam, tais termos são chamados de
Essenciais;
integrantes;
acessórios.

São essenciais: sujeito e predicado.

São integrantes pois complementam o sentido de verbos e nomes: complemento nominal e agente da passiva.

São acessórios porque modificam ou especificam outros termos sem participar da complementação de sentido: adjunto adnominal, adjunto adverbial e aposto.
No próximo post ou capítulo, vamos falar sobre cada um desses termos integrantes e acessórios. Um abração bem grandão! 🙂

Padrão

Clarice Lispector e os rudes ritmos ritualísticos da adolescência

Há essa atmosfera delicadamente adolescente na obra Laços de Família (1960), especialmente nos contos Mistério em São Cristóvão e Preciosidade, peças que são resultantes do esmerado labor de Clarice Lispector, expert em atar e desatar narrativas do processo de adolescer experimentado por suas personagens. E é preciso notar e anotar que, logo na estreia como romancista, enxergam-se marcas do espírito teen em Joana, apesar de essa heroína ser caracterizada como adulta, casada inclusive.
“Encostando a testa na vidraça brilhante e fria olhava para o quintal do vizinho, para o grande mundo das galinhas-que-não-sabiam-que-iam-morrer. E podia sentir como se estivesse bem próxima de seu nariz a terra quente, socada, tão cheirosa e seca, onde bem sabia, bem sabia uma ou outra minhoca se espreguiçava antes de ser comida pela galinha que as pessoas iam comer”. (LISPECTOR, Perto do Coração Selvagem, p. 19)
Tal teen spirit ou teen soul corporifica-se nas reminiscências da infância feliz junto ao pai em Perto do Coração Selvagem (1943). N´A Paixão Segundo G.H. (1964), a protagonista passa por algo que não consegue compreender. Essa incompreensão a move por labirintos extremamente cerebrais: “Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda.” (LISPECTOR: A Paixão segundo G.H., p.15). Logo adiante, a personagem busca racionalizar o que lhe ocorrera.
“A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior”. (LISPECTOR: A Paixão segundo G.H., p.15)
Racionalização sujeita a perigos. Se viver é muito perigoso, Riobaldo, escrever sobre o viver também o é. Talvez até com mais intensidade. Escreve-se porque se está vivo. Está-se vivo porque se escreve. A narrativa em primeira pessoa leva o leitor a percorrer uma trajetória abissal, ao passar por caminhos que tiram o fôlego de quem se atreve a passar os olhos por suas páginas.
“A isso prefiro chamar de desorganização pois não quero me confirmar no que vivi – na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro”. (LISPECTOR: A Paixão segundo G.H. , p. 15)
A exemplo de G.H., as personagens sem nome dos contos Mistério em São Cristóvão e Preciosidade também sofrem uma desorganização, bastante comum ao trajeto das criaturas que orbitam o universo ficcional de Clarice Lispector. Personagens que, em algum momento, perdem a estrutura cotidiana que os sustentam: Ontem, no entanto, perdi durante horas e horas a minha montagem humana. (LISPECTOR: A Paixão Segundo G.H., p. 16). Nasce, então, a pergunta: como os personagens se comportam depois do desmonte, de viver essa pane, esse acontecimento? Virginia Woolf optaria por afirmar que “podem acontecer duas coisas: ou a alma é arremessada contra os rochedos e espatifada ou, encontrando algo em que se segurar, lenta e dolorosamente consegue erguer-se da água, tornar a ganhar a terra firme e finalmente emergir por cima de um universo arruinado para explorar um mundo recém-criado em um plano distinto.” (WOOLF, Virginia: Flush, p. 66). O que seria? Destruição ou reconstrução? Essa era a questão.
Questão que, em se tratando de Clarice, nunca será facilmente resolvida. Haverá, com certeza, desnorteio. A bússola é perdida de uma vez por todas. Vide o que ocorre com a personagem G.H.. Haverá também o norteio. Finalmente encontrada, a bússola de Joana, de Perto do Coração Selvagem, a faz viajar e deparar-se com todo um oceano. Lóri, de Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969), se verá diante de dois pontos (o modo como Clarice finaliza a narrativa). Ana, do conto Amor, apagará a flama do dia.
As criaturas gestadas por Clarice Lispector submetem-se à visão de rosas, de um cego mascando chicletes ou de três mascarados num jardim, que é o que ocorre em Mistério em São Cristóvão. Preciosidade discorre sobre como uma menina é atacada por dois rapazes no meio de uma rua.
“O que se seguiu foram quatro mãos difíceis, foram quatro mãos que não sabiam o que queriam, quatro mãos que a tocaram tão inesperadamente que ela fez a coisa mais certa que poderia ter feito no mundo dos movimentos: ficou paralisada”. (LISPECTOR: Laços de Família, p. 112)
A trajetória da mocinha de 19 anos de Mistério em São Cristóvão é oposta à da garota de 15 anos de Preciosidade. Entretanto, reconhece-se nesses dois contos a existência de ritos que se assemelham aos ritos de passagem: “E então já não se apressou mais. A grande imolação das ruas. Sonsa, atenta, mulher de apache. Parte do rude ritmo de um ritual.” (LISPECTOR, p. 109).
O transpor da adolescência para a fase adulta, apesar de que, cronologicamente, a personagem de Mistério já possa ser considerada adulta – porém, lembremos que para o escalar do tempo dos norte-americanos, ela ainda seria teen.
O que acontece em Preciosidade acontece antes do jantar, junto com a família. O que acontece em Mistério acontece depois do jantar, acontecimento que acaba servindo como um anti-clímax da narrativa, anunciando, com toda a intensidade, o que está por vir. Em Mistério em São Cristóvão, o rito é sutil e, ao mesmo tempo, visível no corpo, simbolizado pelo surgimento de um fio de cabelo branco na cabeça da personagem.


Em Preciosidade, há um rito de passado forçado, violento, do qual a personagem está fadada a suportar como fatalidade. Nesse momento, o narrador intervém: Mas como voltar e fugir se nascera para a dificuldade? (LISPECTOR: Laços de Família, p. 110)
Cada pessoa percorre caminhos, seja pela via da dor, seja pela via da alegria. A menina de Preciosidade transforma-se numa mulher depois do que lhe ocorre: torna-se vaidosa ao notar descuidadas suas unhas – há a presença feminina do que nesse amontoado de cálcio que os humanos batizamos de unha: “Preciso cuidar mais de mim.” (LISPECTOR: Laços de Família, p. 115). E que ainda deverá exigir sapatos novos da família.
Enquanto isso, a mocinha de Mistério entrará num túnel do tempo em que se quedará na infância: “Toda a construção laboriosa de sua idade se desfizera, ela era de novo uma menina.” (LISPECTOR, Laços de Família, p. 144)
Só depois é que ela vai recuperar sua verdadeira idade. (LISPECTOR, p.144) De algum modo, as duas personagens se metamorfoseiam, uma temporariamente, a outra, talvez possa vir a se tornar um pássaro de fogo.
Os olhares de Mistério fundam uma unidade, um círculo quadrado, segundo o narrador.
“Nenhum espectro viu o outro desaparecer porque todos se retiraram ao mesmo tempo, vagarosos, na ponta dos pés. Mal, porém, se quebrara o círculo mágico de quatro, livres da vigilância mútua, a constelação se desfez com terror”.
(LISPECTOR: Laços de Família, p. 143)
“Círculo mágico de quatro”: uma referência incomum à figura geométrica mais popular do nosso planeta, ao passo que em Preciosidade, a personagem sempre foge de ser examinada por olhos humanos e no entanto termina sendo tocada no corpo só seu.
Nenhuma das duas personagens vai expressar verbalmente o que lhes ocorrera às suas respectivas famílias. Verbalmente não. A histeria, o nervosismo e o novo modo de se portar da menina de Preciosidade à mesa serve como um comunicado.
Mas no jantar a vida tomou um senso imediato e histérico: – Preciso de sapatos novos! Os meus fazem muito barulho, uma mulher não pode andar com salto de madeira, chama muita atenção! Ninguém me dá nada! – e estava tão frenética e estertorada que ninguém teve coragem de lhe dizer que não os ganharia. Só disseram: – “Você não é uma mulher e todo salto é de madeira”.
(LISPECTOR: Laços de Família, p. 116)
O que essas duas figuras do universo ficcional de Lispector possuem em comum? Ou de diferentes? A mocinha de Mistério dá-nos a entender que ela tem uma intensa vida vivida no espaço doméstico, tanto que o que ocorre é no jardim da sua casa. Em Preciosidade, a personagem gosta de estar nas ruas, nos ônibus, na escola. Percebe-se, então, que há três espaços geográficos bem definidos: a casa, a escola e as ruas. Em casa, há o relacionamento com a empregada. Na escola, chama a atenção, pois é naturalmente inteligente (LISPECTOR, 1995, p.106). Nas ruas, apesar do medo que a acompanha, é uma anônima, anonimato que impulsiona sua alegria em estar viva. Para cada lugar, assenta-se uma máscara de proteção, de disfarce, uma couraça. Tema recorrente na obra de Clarice. Em Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, o narrador afirma que Lóri “usava a máscara de palhaço excessiva. Aquela mesma que nos partos da adolescência se escolhia para não se ficar desnudo para o resto da luta”. (LISPECTOR: Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, p. 44)
No transcorrer desse texto – um libelo – que discorre sobre as máscaras nossas de cada dia, o narrador explica que as fabricamos no decorrer das nossas existências.
“Inclusive os adolescentes, que eram de rosto puro, à medida que iam vivendo fabricavam a própria máscara. E com muita dor. Porque saber que de então em diante se vai passar a representar um papel que era de uma surpresa amedrontadora. Era a liberdade horrível de não-ser. E a hora da escolha”. (LISPECTOR, Laços de Família, p. 44)
Nos ritos adolescentes testemunhados pelo leitor de Clarice Lispector, identificam-se as reações das famílias. São ritos individuais. Cada pessoa que acenda sua própria fogueira, arda ou permita que a chama feneça. A família de Preciosidade percebe alguma coisa de diferente na garota, pois não tem coragem de negar a demanda por sapatos novos. As personagens dos dois contos têm direito ao grito, grito que é ouvido pela família de Mistério. A menina de Preciosidade poderia reivindicar um grito sobre-humano logo depois do que viveu, todavia esse grito ficará represado por algum tempo.
‘Tinham medo que ela gritasse e as portas das casas uma por uma se abrissem’, raciocinou, eles não sabiam que não se grita. (LISPECTOR: Laços de Família, p. 113).
Quando esse rito irromper, será mais que um grito. Será um urro. Animalesco mesmo. E ocorrerá no lavatório da escola “onde, diante do grande silêncio dos ladrilhos, gritou aguda, supersônica: estou sozinha no mundo. Nunca ninguém vai me ajudar, nunca ninguém vai me amar! Estou sozinha no mundo!” (LISPECTOR: Laços de Família, p.114)
Ao lado da mocinha misteriosa de 19 anos, estarão a avó e a mãe: “Enquanto isso, a casa iluminara-se toda. A mocinha estava sentada na sala. A avó, com os cabelos brancos entrançados, segurava o copo dágua, a mãe alisava os cabelos escuros da filha, enquanto o pai percorria a casa”. (LISPECTOR: Laços de Família, p. 143)
Essa família vai ficar horrorizada mesmo é com o irromper de um fio de cabelo descolorido: “Mas na imagem rejuvenescida de mais de uma época, para o horror da família, um fio branco aparecera entre os cabelos da fronte.” (LISPECTOR, p. 144).
Sempre me atraíram os adolescentes nos universos criados por Clarice Lispector. Em Joana, enxergo sim uma adolescente. Adolescente no sentido de um ser que vive a angústia e a alegria profundas. Em grau máximo. Quando teenagers, éramos mais sentidores. O mundo nos invade a cabeça sem freios. Nosso corpo sofre mudanças tão rápidas. Somos e estamos desajeitados. Há um certo desconforto em se ter um corpo, um corpo que tem que ser exposto. Há uma ânsia de viver, de ser e de se mostrar misturada à necessidade de se esconder. Há o medo de se revelar.
O conto Preciosidade é magistral pois consegue dizer muito desse turbilhão de emoções que acontece nessa fase preciosa que é a adolescência, ausente o sentimento de nostalgia. O que há é mais uma constatação de que as coisas são. É inevitável lembrar de outros contos de Clarice que trazem adoleSeres. O Beijo é de uma extrema simplicidade revestida de delicadeza ao perfilar um rapaz que conta para a namorada a primeira vez em que beijou. Na verdade, ele mais recebeu do que deu um beijo.
“Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele…
Ele se tornara um homem”. (LISPECTOR: Laços de Família, p. 174 e 175)
Felicidade Clandestina é a via-crucis de uma menina que recebe a promessa de conseguir emprestado o livro Reinações de Narizinho, da filha de donos de uma livraria. Essa guria vai torturá-la por dias e dias exibindo o objeto de desejo da outra como uma isca inalcançável. Até que a mãe da algoz descobre as artimanhas da filha e entrega a obra para a vítima dizendo-lhe: E você fica com o livro por quanto tempo quiser. A personagem alcança-se o êxtase. Trata-se de prazer. Trata-se de alegria. Intensa alegria.
“Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passar pela casa, adeiei mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.” (LISPECTOR: Felicidade Clandestina, p. 54)
Começos de uma Fortuna, conto também de Laços de Família, narra a história de um rapazinho que possui uma preocupação cada vez mais crescente na sua pequena grande vida: o desejo/necessidade/vontade de acumular dinheiro. E a atmosfera da vida vivida dentro de casa e a vida vivida nas ruas da cidade:
A vida fora de casa era completamente outra. Além da diferença de luz – como se somente saindo ele visse que tempo realmente fazia e que disposições haviam tomado as circunstâncias durante a noite – , além da diferença de luz, havia a diferença do modo de ser. Quando era pequeno a mãe dizia: “Fora de casa ele é uma doçura, em casa um demônio. Mesmo agora, atravessando o pequeno portão, ele se tornara visivelmente mais moço e ao mesmo tempo menos criança, mais sensível e sobretudo sem assunto”. (LISPECTOR: Laços de Família, p. 132)
Ele pretende se tornar um homem, depois um marido, ser rico, muito rico. No final, a pergunta premente, mais do que necessária: “ — Papai, chamou Artur docilmente, com as sobrancelhas franzidas, papai, como são promissórias?” (LISPECTOR, 1995, p. 137).
Você sorriu. Também eu.

Padrão

Cake

A cena final do filme Cake (2014, dirigido por Daniel Barnz) define a virada que a protagonista vai dar à sua vida. Roteirizado por Patrick Tobin, traz Jennifer Aniston num papel dramático: ela encarna uma personagem complexa, Claire Bennett, que aprende a lidar com a perda. Da pior forma possível. Sente dor no corpo e, principalmente, na alma. Quando Claire consegue se levantar sem a ajuda de ninguém, a imagem – emblemática – mostra-nos que ela vai conseguir tocar adiante a sua vida. Não esquecendo a perda, aprende a conviver com a ausência. Como? Cazuza já cantou que a vida é implacável. Não pára.

Foto por Pietro Jeng em Pexels.com

Padrão

Para uma redação nota 1000

A primeira lição é o óbvio ululante. É o que você está fazendo agorinha: ler. Leia o que quiser, o que puder, o que estiver ao seu alcance porque a leitura faz parte da base da escrita.

Ler firma o alicerce do pensamento que se desenvolve à medida em que as linhas são decifradas. Tranquilize-se quanto ao gênero que você mais gosta de consumir. Sejam quais forem suas preferências, suas leituras constroem uma estrada que leva, naturalmente, a escrever. Basta querer. São dois os lados da moeda: ler e escrever. E vice-versa.

Da primeira lição, proponho uma atividade: adquira um caderno e anote as frases e sentenças que mais marcaram você. Tenha esse caderno com você sempre que estiver lendo. Reproduzir trechos com os quais você se identificou é uma forma de apropriação da obra e isso vai sedimentar suas ideias pois ler não é algo passivo. De jeito nenhum: é uma atitude ativa que descortina horizontes os mais diversos na mente. Olha só esse pedacinho reluzente da obra de Nietzsche: “O homem é corda estendida entre o animal e o Super-homem: uma corda sobre o abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar; perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar. O que é de grande valor no homem é ele ser uma ponte e não um fim; o que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e um acabamento.” | Assim Falou Zaratustra

Que coisa mais linda, não é mesmo? A gente é uma passagem. Guimarães Rosa, de certo modo, dialoga com Nietzsche. A obra-prima Grande Sertão: Veredas termina assim: “Existe é homem humano. Travessia.” Lembre-se ou saiba que Rosa foi um desbravador da língua portuguesa. Ele sabia manejá-la como poucos. Daí quando ele diz “homem humano”, à primeira vista pensa-se que é um erro, uma redundância. Não é um erro. Não é uma redundância. São muitas as implicações desse “homem humano. A travessia de Guimarães Rosa conduz à escritora Clarice Lispector que em A Paixão Segundo G.H., avisa: “E é inútil procurar encurtar o caminho e querer começar já sabendo que a voz diz pouco, já começando por ser despessoal. Pois existe a trajetória, e a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos.”

Não importa para onde vamos. Somos e construímos nossa estrada. Nossos passos traçam o percurso e se confundem com as escolhas que fazemos.  As veredas que o cérebro percorre ao se deparar com os livros são complexos e necessários ao ato de crescer. Quanto mais lemos, mais crescemos como leitores. Começamos a ficar mais exigentes porque devorar obras inteiras vai se tornar um hábito. Não há contraindicações para o ato de ler. Quanto mais, melhor.

Tenha o caderno com você sempre que estiver lendo. Consiga também um menorzinho, tipo caderneta e leve-o aonde você for. Escreva o que der na telha. Pensamentos seus e de outrem. Coloque no papel sem censura. Apenas impeça que as palavras voem para bem longe. Agarre-as. Aprisione-as na sua caderneta.

Mantenho o costume de copiar textos de outrem até hoje. Tenho volumes e mais volumes cheios de citações. É gostoso colecioná-las e isso dá a medida de que tudo o que já foi impresso edifica um acervo universal que está ao alcance de quem começa a buscar. Acredito que os livros são retalhos de uma colcha infinita de sensações, emoções, sentimentos e sonhos humanos, demasiado humanos. E você? Qual é a sua visão sobre a literatura? Que tal escrever sobre isso?

Ah, outra dica: espalhe livros por toda sua casa – menos em locais acessíveis ao seu cachorro, por favor. Cachorro adora comer papel, não é?

Vai que você está na sala para assistir àquela série sobre a Segunda Guerra Mundial.

foto (6)

… então, a primeira lição é: leia. Bastante. Se você não gosta de ler, comece a fazer resenhas de filmes. Ou de documentários. Pode ser um jogo. Ou um mangá. Não precisa seguir o modelo de uma resenha perfeita. Faça com o básico. Identifique o nome da obra; ano de lançamento; produtora; direção; roteiro. Faça. Não tenha vergonha. Não tenha medo de crítica. É para seu próprio consumo. Você vai ver que vai destravar a sua escrita.

Tente escrever todos os dias. Inicie suas anotações com o que você mais gosta. Na minha trajetória de leitora, encontrei alguns livros maravilhosos. Na maioria das vezes, foram os livros que me encontraram.

Essa foi a primeira lição para sua redação nota mil. Lição que se desdobra em outras como uma boneca russa. Uma dentro da outra. Arretado demais! Até breve!

 

Padrão