| Paul Auster: a última coisa que eu queria era me proteger dos riscos da vida |

A vida não é uma natureza morta. Foto por Daria Shevtsova em Pexels.com

Fui e sou apaixonada por muitos “Paul”: o ator, Newman; o Beatle; e tem também o escritor, Paul Auster (foto), que faz aniversário hoje, 3 de fevereiro de 2015. O que me fascina na obra de Auster é o manejo incomparável da escrita. Ele parece um maestro. Gosto também da recorrência de certos temas na sua obra, como as terríveis e adoráveis coincidências que são pregadas por e pelas nossas vidas.  Admiro o escritor ou a escritora que sempre soube que queria escrever, como uma missão. Ou dádiva. Ou sina. Em Da mão para a boca (Hand to mouth), Auster nos conta como foi difícil se manter do ofício de escrever, como ele se posiciona tão firmemente em relação ao caminho que precisou seguir:

Não vou defender as escolhas que fiz. Se elas não foram práticas, a verdade é que eu não queria ser prático. Queria viver experiências novas, conhecer o mundo e me testar, entrar e sair de várias coisas, explorar o máximo possível. Desde que eu mantivesse os olhos abertos, parecia-me que tudo que acontecesse comigo seria útil, me ensinaria coisas que eu não conhecia antes. Se isso parece um método um tanto antiquado, então que seja: jovem escritor despede-se da família e dos amigos e parte para um rumo desconhecido, a fim de descobrir a si próprio. Por melhor ou pior que fosse esse caminho, creio que nenhum outro me teria servido. Eu tinha energia, a cabeça cheia de ideias e pés que não queria ficar parados no mesmo lugar. Como o mundo era grande, a última coisa que eu queria era me proteger dos riscos da vida.

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Carta para David

Bowie,

te dou pérolas e diamantes de todo o meu coração. Lá pelos anos oitenta, eu ouvia você pelas ondas que me chegavam pelo rádio. Quem consegue discordar da magia daquelas noites maravilhosamente insones?
Noites de adolescente em Petrolina, sertão pernambucano. O rádio era nosso i-pod, i–phone, Samsung-galaxy, moto-g… Freddy está tão certo naquela canção, Radio Ga Ga!
Eu era feliz… e sabia!
Como isso aqui não é uma dissertação de mestrado, ouso afirmar que eu sei qual é a sua Pasárgada. A sua Pasárgada está localizada no espaço sideral. E eu posso provar com os títulos de algumas canções suas: Starman, Ziggy Stardust, Space oddity, Life on Mars?
David, eu te ai lóvi iú. Não, não. Não porque o amor seja uma palavra antiquada e sim porque “o amor nos desafia a cuidar das pessoas no fim da noite, o amor nos desafia a mudar nosso jeito, nos desafia a cuidar de nós mesmos, esta é a nossa última dança, estes somos nós.” (Under pressure, trecho livremente traduzido)
Love,
Nádia aos 21 dias de junho de 2015.

A Pasárgada de Bowie | Foto por Tom Leishman em Pexels.com
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Definição engraçadinha

- Oi, eu sou um cachorro. Quieres hablar?
Foto por Gilberto Reyes em Pexels.com

… por você, eu dormiria de meia pra virar burguês…

Ele tem nove anos, e no trecho acima da música do Barão Vermelho, me pergunta:

— O que é burguês?

Carambola, como vou explicar o que é burguês? Vou falar dos burgos, da Revolução Francesa, do Romantismo etc? O silêncio perdura enquanto a canção continua e ele parece ter esquecido o assunto.

— Já sei! Burguês é quem gosta de hambúrguer!

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Possibilidades

Eram duas meninas que perambulavam pelas ruas de Petrolina.  Na idade da esperança.

Os pés, quatro pés que não usariam hidratante Nivea.

As bocas, duas bocas que não provariam Chicabon.

As mãos, quatro mãos um dia tiveram uma cédula de vinte reais.

Eu as vi chegar à pizzaria. Pediram duas fatias de muçarela.  

Os olhos, quatro olhos se arregalaram.

Foi o sabor mais delicioso de suas vidas.

Foto por Maria Orlova em Pexels.com
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Arte é combate

Vincent Van Gogh lia muito. E gostava de anotar o que marcava o coração. Numa carta que escreveu ao seu irmão Théo, VG citou Millet de Sensier:

“A arte é um combate — na arte é preciso dar o sangue.

Eu preferiria não dizer nada do que me exprimir frouxamente.”

Artistas realmente podem sangrar na tentativa de dizer da forma que acreditam que deve ser. A necessidade de dar forma àquele estalo criativo que veio em sonho, numa conversa, num olhar ou durante a labuta diária.

“… é por isso que às vezes sinto a necessidade de me exprimir com um rude lápis de carpinteiro ao invés de um fino pincel”, afirma Van Gogh corroborando a imensa vontade que guia os que se atrevem a fazer arte. Para que o trabalho seja executado, não importam as ferramentas. Às vezes, um toco de carvão será responsável por moldar o grito que precisa sair. Qualquer coisa que estiver em nossas mãos. Vamos deixar de dar desculpas. Vamos agir. Vamos criar.    

Van Gogh: Noite estrelada

| Trechos extraídos de Cartas a Théo: p. 68. L & PM Pocket, Porto Alegre, 2014

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O que aconteceu, miss Simone?

Que história a de Nina Simone. Parte da vida dela está num documentário dirigido por Liz Garbus.

Nina foi batizada de Eunice Kathleen Waymon, mas teve que mudar de nome. Precisou, para sobreviver,  cantar a “música do diabo” em bares americanos e não queria que a mãe descobrisse. A meta de Nina Simone era se tornar uma pianista clássica. Queria tocar Bach.

Enfrentou preconceitos. Enfrentou a pobreza. Enfrentou o marido que batia nela. Definiu assim a liberdade: “É não ter medo.”

Foi defensora dos direitos dos negros nos Estados Unidos. Viva Nina Simone!

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Errare humanum est

Errare humanum est. Errar é humano. Não se trata do verbo relacionado às besteiras que cometemos, e sim do errar, do vagar, do flanar, do caminhar. Interessante notar que o errar do dito popular se refira às bobagens que fazemos no caminho. Porque a gente só comete erros se tentar.

Errou? Continue. Seja um errante.

Tentar, lógico, implica buscar vários caminhos até encontrar o ideal, não necessariamente o mais fácil.

Há algumas pessoas sortudas que encontram rapidinho seus caminhos. Outras, a maioria de nós, sofre para achar. Porque primeiro, é preciso se achar, se descobrir. Para depois buscar. Nessa jornada, necessário é olhar para dentro da gente. Difícil quando há tanto para ver do lado de fora.

Foto por Artem Beliaikin em Pexels.com

Uma forma de tentar se encontrar? Meditar. Ao meditar, procuraremos. Procuraremos dentro de nós mesmos. Há um grande risco nessa procura. Um risco doce.

Quando a gente finalmente se encontra, a gente se depara com Deus. Não é mais um duelo. É um encontro. Um encontro fundamental para as nossas existências. Percebeu que na palavra dEUs, está EU?

Obs.: a anjinha da foto tirada (1872) por Julia Margaret Cameron é Rachel Gurney. O nome da foto: I wait.

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Clarice de mau-humor

Os cronistas faziam seus textos diariamente ou semanalmente para um jornal que seria impresso.  A tarefa de escrever, então, era um compromisso sério. Havia um prazo para terminar e enviar. Era o cruel dead line, como se usa na rotina do repórter de jornal, revista ou televisão. Além de concluir o texto, o cronista ainda tinha que enviar o texto para a redação.

Na época em que Clarice Lispector escrevia, não havia computador. Só máquinas de escrever. O texto tinha que ser escrito rotineiramente. Não dava para esperar inspiração. Tinha que trabalhar. Não havia tempo para sonhar. E olha que Clarice tinha um espaço aos sábados no Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro.  Escrever por obrigação foi um desafio e tanto. Porque ela se dizia amadora e não profissional. Se a gente for ver a definição de amadora, vai descobrir que é aquela pessoa que faz algo por amor. E não por dever. Nesse sentido, Clarice era uma adorável amadora. E todo cronista que se preze um dia vai explodir:

Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo.

E criaram o Dia dos Analfabetos.  Só li a manchete, recusei-me a ler o texto do mundo, as manchetes já me deixam em cólera.

| Clarice Lispector. A Descoberta do Mundo, trecho de crônica publicada no Jornal do Brasil em 14 de outubro de 1967.

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