O tecer das horas e o bordar das pétalas

Foto por Olga em Pexels.com

A tecedora das horas seria o título de uma crônica que versaria, pra variar, sobre um trecho da obra de Clarice Lispector, minha mais doce obsessão. O título se referiria a um fragmento do livro de CL, Um Sopro de Vida (Pulsações). O ato de tecer é mencionado quando o narrador diz que a personagem Angela Pralini não se satisfaz em escrever crônica para um jornal.

Antes de começar a escrever minha crônica para o blog, deparo-me com um texto de uma quase xará de Clarice, a também escritora Clarissa Loureiro, que inicia seu poema sobre a necessidade de bordar:

“É preciso aprender a bordar antes de morrer. Sim, é preciso.”

Alguns chamariam de coincidência o fato de Clarissa começar o poema com o ato de bordar, que tem muito a ver com o ato de tecer. Em vez de coincidência, prefiro chamar o ocorrido de borboleta lírica.

O que fica em mim quando leio esse poema? A sensação de bruma, neblina, mas também de um passeio por um jardim, pétalas lançadas ao vento. E de liberdade. Liberdade que é a ausência de medo. 

Seremos capazes de aprender a bordar? Percorreremos jardins e deixaremos um doce aroma dos erros que cometemos.

Segue o texto de Clarissa Loureiro:

É preciso aprender a bordar antes de morrer. Sim, é preciso.

É preciso aprender a ouvir o tempo, com a serenidade dos velhos, com a acuidade dos animais, com a paciência das mães, com a tolerância das flores.

Quando era mais jovem, ouvi de meu primeiro namorado uma dolorosa saudade: ” a tua loucura não te deixa entediar”. A ansiosa menina despedaçava as circunstâncias como pétalas de rosas jogadas ao acaso. E deixava um doce aroma de seus erros por onde passava. “Toda loucura será perdoada?” Talvez, na juventude.

O jovem tem o álibi da ignorância do prever, já que não viveu o bastante para observar da cadeira de rodas de sua existência a enfadonha repetição de seus erros mascarados de anseios.

Hoje, sentada nesta mesma cadeira de rodas, aceito minha condição de pítia. Deixo os chinelos ao lado da cama à espera que o tempo melhore, ciente de que nem sempre se pode estar no controle. Saibamos silenciar diante do inevitável.

Se eu soubesse bordar, colocaria minha cadeira diante do entardecer e deixaria a agulha passear por entre meus dedos, parca de minhas sensações.

Querida Alanis,

… esta carta é para te dizer que você entrou na minha vida quando eu morava em São Paulo. Como gostei de cada música sua. Do seu jeito de menina, da sua alma de mulher. De certo modo, eu me via em você, eu estava começando a minha vida de adulta com um canudo de jornalista no bolso. E muita fé.

Abracemos a vida! Foto por Nina Uhlu00edkovu00e1 em Pexels.com

Sabe, quiseram te depreciar dizendo que você era a Angélica do Canadá. Que você tinha um trabalho menor. Você é grande. Mas claro que você já sabe disso. Você construiu uma obra maravilhosa que vai ficar ressoando na minha cabeça e na muita gente que viu sua estrela ascender.

Eu assisti ao documentário na HBO, Jagged Little Pill, você não é mais uma menina – fisicamente falando. Você envelheceu bem e virou mãe! Lindos os seus filhos. Que cresçam felizes.

Você merece tudo de bom que houver nesta vida. E um pouquinho mais.

Então, Alanis Morrissete, obrigada por suas canções!

Um beijo com carinho, extremo carinho!

Nádia

Brasil, 28 de dezembro de 2021

Menino que é pai do homem

Tem filmes que a gente vê e dá vontade de escrever um romance como O Silêncio de Melinda (Speak, 2004). Ou As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower, 2012).  Séries também alimentam a minha alma de escritora.

Mudando de sabão para chocolate, Palmer (2021) é daquela safra de filmes em que o menino é pai do homem. Olha o trecho do diálogo entre Eddie Palmer, vivido por Justin Timberlake, e Sam (Ryder Allen):  

— Você gosta de tomar vaca preta?

— Nunca tomei.

— Nunca tomou? Venha comigo experimentar.

— Tá.

— E aí? O que achou da vaca preta?

— É o céu numa caneca!

Com essas palavras, vejo que começo a me despedir de 2021. Foi um ano em que não realizei muita coisa. Vou trabalhar e fazer a situação mudar em 2022. Um abraço para você. Obrigada mesmo por me ler. Se cuida. Abre aquele sorriso. Isso! Fé na vida!

… deixa escoar

Se você estiver chorando no banheiro, não se preocupe. Sua dor irá embora. Confie em mim. A água levará todas as suas tristezas. A água vai te curar. Seus medos não vão se dissipar num passe de mágica. Os medos são necessários. Sem medo, não sobreviveríamos. Gota a gota, maneje sua dor. Confie em mim. Se você estiver chorando no banheiro, não se preocupe com isso. Essa dor vai passar, você vai sobreviver e ficará mais forte do que nunca. Confie em mim. Drene todas as suas tristezas. Confie em mim. Você ficará mais forte do que nunca.

Drawing by Tom Aevedo. Copyright.

As cenas mais bonitas

Cena de ‘ Os Infiltrados’ (The Departed, 2006): atenção às faíscas entre Vera e Leo

Um filme que me marcou, por isso marco aqui: Os Infiltrados (The Departed, 2006), roteirizado por William Monahan, dirigido por Martin Scorsese. Tem um elenco selecionadíssimo. Lá estão Vera Farmiga, Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Martin Sheen, Jack Nicholson, Mark Walberg, Alec Baldwin. São os que me lembro sem precisar pesquisar. The Departed é violento, sangrento até demais. Entretanto houve espaço para uma bonita cena entre Madolyn Madden (Vera Farmiga) e Billy Costigan (Leonardo DiCaprio) que vai de 1:19:28 até 1:22:43 acompanhada de “there is no pain, you are receding”. Sim. A música Comfortable Numb numa versão única. Não quero contar muito para não estragar o prazer de quem ainda não assistiu ao filme. Vou te dizer que há chuva, há emoção, há desejo, há química, há sexo, há amor. Coisas são ditas. Fala-se em escolhas, fala-se em promessas, vive-se o agora. E quando o silêncio prevalece é para servir de apoio para o avançar da eletricidade que existe entre os dois personagens. Obrigada por me ler. Fique bem. Até.

O silêncio e as vantagens

Você pode dar um roteiro para 7 diretores filmarem. E cada um contará a história de um jeito diferente. Cada um terá um olhar peculiar. E quanto mais a gente se fortalece, mais o olhar se firma, mais a gente se aceita e pode se aprimorar dia a dia. Falo isso ao lembrar de dois filmes: O silêncio de Melinda (Speak, 2004) e As vantagens de ser invisível (The Perks of Being a Wallflower, 2012).

Amanhã falarei um pouco sobre cada um deles. Até lá. Muita paz. Um abraço.

é casa, é jardim

Foto por Mike em Pexels.com

No dia 18 de outubro de 2017, escrevi para minha mãe:
… são tantas as obras que a senhora realizou. E agora, quer dar concretitude ao sonho da Vila das Margaridas, uma casa-jardim para abrigar os idosos que não podem mais morar nas suas residências por motivos diversos. Idosos que precisam de muitos cuidados ao fim das suas trajetórias.

Mãe, a senhora sempre auxiliou os outros e às vezes eu me ressentia devido ao pouco tempo que restava depois das suas horas de trabalho como revendedora da Avon e da Christian Grey. A senhora andava pelas ruas de Petrolina e Juazeiro com uma sacola pesada, entregando encomendas. Eram desodorantes, colônias, hidratantes. Vem daí o seu hábito de até hoje presentear tanta gente com o sabonete Alma de Flores? A senhora que gosta tanto de começar os textos das campanhas de arrecadação de alimentos com a frase “Fica sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas, nas mãos que sabem ser generosas.” Mãe, consegui finalmente compreender a sua dedicação ao povo, aos que poucas oportunidades tiveram na vida. A senhora sempre abriu a porta da sua casa quando ainda nem havia esses imensos portões amuralhando Petrolina. Obrigada a construir um muro na frente do seu lar, a parede sempre foi baixa para enxergar quem passava pedindo ajuda. Tô falando da nossa casa na Rua da Harmonia, Vila Mocó, bairro chamado agora de Jardim Paulo Afonso. Foi na Rua da Harmonia que a senhora começou distribuindo sopa pra quem tinha fome.
Depois, me lembro, a senhora fez uma campanha para a aquisição de baldes de lixo para todos os moradores, aqueles feito de pneus;  era uma espécie de bolão solidário, em que cada um pagava um valor e iam sendo contemplados.

  • campanha do saneamento;
  • plantio das árvores no bairro inteiro;
  • construção da Escola Nosso Espaço;
  • Grupo Vida Nova de Terceira Idade;
  • unidade da Nova Semente na Rua Bahia e aí, começo a chorar escrevendo isso.
Foto por SHVETS production em Pexels.com

Tudo o que a senhora construiu foi graças à sua a força, apoiada pela família e amigos. Mãe, tenho que parar de escrever e correr pra ter dar um abraço bem forte porque hoje a senhora completa 82 anos de vida!

… adivinha

Eu acho que gosto de manga…

Estava vendo umas fotos. E percebi a recorrência de crianças chupando manga. Sabe aquela saborosa que só quem vive no nordeste sabe? No litoral, a campeã é a manga rosa. No sertão tem que ser a manga espada. É a melhor. É a mais barata. É tipo o vira-lata das frutas. Meu irmão uma vez se viu numa situação periclitante. Ele estava sozinho cuidando do filho e veja só, claro que não entendeu nenhuma instrução que a esposa deu quanto a preparar o leite. Que consistia em ferver a água, acrescentar leite em pó, agitar, deixar esfriar e dar morninho pro filho. Qual. Meu irmão não teve habilidade suficiente para cumprir a tarefa, as horas avançaram e o menino começou a chorar. De fome. Ele ainda era um bebê, tinha uns 11 meses de idade, pois sabe o que o salvou? Sim. Uma bela manga espada madurinha. Bastou um furinho e a mamadeira estava pronta. Foi a salvação viu?

Já já darei um título

Eu tenho a força! Foto por Erik Mclean em Pexels.com

— Você é índia branca que cupim que não rói.  Foi o que o sogro disse para a nora, Valmira. Ela contou que esse foi o maior elogio que recebeu em toda sua vida. Criou dois filhos sozinha. Aos 79 anos, olha-me com um manto de azul profundo. Seus olhos são duas cortinas em que consigo captar todo o pulsar da vida. Cheia de bom humor, disse-me que passou um mês na casa de uns desconhecidos.

— Vieram me buscar, sabe? Fui para uma casa bonita, um pouco longe daqui. Trataram-me tão bem. Deram-me tantos mimos. Faziam e traziam o meu café na cama, veja só.

— E a senhora não consegue se lembrar quem eram?

— Não. Mas isso não importa, né? O que importa mesmo é que passei uns dias maravilhosos com um casal bonito que tinha um filhinho. Será que um deles era filho meu? Pois eu tenho certeza de que tenho uma filha e um filho. Vou te mostrar umas fotos deles…

Valmira sofre de Alzheimer. Ficou caduca, que era o que se dizia do idoso que esquecia de coisas e, principalmente, de pessoas.